Questão 8 da 2ª fase da FUVEST 2018
Leia o texto e responda ao que se pede.
É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
a) Pode-se afirmar que, neste excerto, além de resumir a existência de D. Plácida, o narrador expressa uma certa concepção de trabalho? Justifique.
b) De que maneira o ritmo textual, que caracteriza a possível resposta dos sacristãos, colabora para a caracterização de D. Plácida?
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Resolução comentada
a) Sim. O narrador resume a vida de D. Plácida, filha de um sacristão e de uma sacristã: trabalho incessante, de cozinha e costura, com comida escassa, doença, resignação e fim miserável "na lama ou no hospital". Ao mesmo tempo, ele expressa uma concepção de trabalho. Nessa passagem, o trabalho não dignifica nem emancipa. É uma condenação, um fardo penoso e sem saída que marca a vida dos pobres. Ele não traz melhoria nem reconhecimento, apenas esgotamento físico ("queimar os dedos", "os olhos na costura") e sobrevivência precária. A ironia aparece em "num momento de simpatia". Ela mostra que a existência dessa mulher resultou de um acaso, de um gesto sem reflexão dos pais, e que foi destinada de antemão à exploração. Há ainda uma crítica social: a origem humilde determina o destino, e o esforço não muda a condição. Sim: além de resumir a vida de D. Plácida, o narrador apresenta o trabalho como fardo penoso e sem recompensa, que perpetua a miséria, e não como valor edificante.
b) A resposta imaginada dos sacristãos é uma longa enumeração de tarefas e estados, ligada por vírgulas e por construções repetitivas e paralelas: "queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura", "adoecendo e sarando", "triste agora, logo desesperada, amanhã resignada". Essa repetição cria um ritmo monótono, contínuo e cansativo, que imita a rotina interminável de D. Plácida. O retorno a "as mãos no tacho e os olhos na costura" sugere um ciclo circular, sem progresso. O ritmo só se interrompe no fim, "na lama ou no hospital", o que reforça a ideia de um destino inevitável. A frase longa, sem pausas fortes, transmite a falta de descanso e de esperança, e a personagem aparece como alguém reduzida à função de trabalhar. O ritmo repetitivo, em frase longa e enumerativa, reproduz a rotina exaustiva, cíclica e sem saída de D. Plácida, caracterizando-a como vítima de um destino de trabalho e miséria.
Assuntos: machado de assis, memórias póstumas de brás cubas, interpretação de texto.
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