PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 86 da UNICAMP 2016

1ª fase · Literatura: Memórias Póstumas de Brás Cubas

(...) pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil réis.
– Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
– Sim? acudiu ele, dando um bote pra mim.
– Trabalhando, concluí eu. Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes, depois disse-me positivamente que não queria trabalhar.

(Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001, p.158.)

O trecho citado diz respeito ao encontro entre Brás Cubas e Quincas Borba, no capítulo 49, e, mais precisamente, apanha o momento em que Brás dá uma esmola ao amigo. Considerando o conjunto do romance, é correto afirmar que essa passagem

  1. A
    explicita a desigualdade das classes sociais na primeira metade do século XIX e propõe a categoria de trabalho como fator fundamental para a emancipação do pobre.
  2. B
    indica o ponto de vista da personagem Brás Cubas e propõe a meritocracia como dispositivo pedagógico e moral para a promoção do ser humano no século XIX.
  3. C
    elabora, por meio do narrador, o preconceito da classe social a que pertence Brás Cubas em relação à classe média do século XIX, na qual se insere Quincas Borba.
  4. D
    sugere as posições de classe social das personagens machadianas, mediante um narrador que valoriza o trabalho, embora ele mesmo, sendo rico, não trabalhe.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

Na cena, Brás Cubas, rico e herdeiro, dá cinco mil réis a Quincas Borba, que está decaído e miserável. Brás lhe diz que ele poderia ver "outras muitas" notas trabalhando. Quincas faz um gesto de desdém e diz que não quer trabalhar.

O que a questão pede é o sentido da passagem no conjunto do romance. Em Machado, o narrador é uma classe ociosa, que vive de renda e herança. Brás nunca trabalha de fato: fracassa na política, não exerce a profissão e vive de patrimônio. Mesmo assim, ele dá lição de moral ao pobre sobre o valor do trabalho. Essa contradição é a ironia machadiana.

Assim, a cena revela as posições de classe (o rico que dá esmola e o pobre que a recebe) e mostra um narrador que valoriza o trabalho sem praticá-lo.

Sobre as alternativas:

  1. A erra ao dizer que o texto propõe o trabalho como emancipação: Machado ironiza esse discurso, e Quincas o recusa.
  2. B erra ao afirmar que a obra defende a meritocracia: a ironia a desmonta.
  3. C erra ao tratar Quincas como classe média. Ele é um pobre decaído, antigo colega de Brás.
  4. D se encaixa no que se viu: mostra posições sociais e a incoerência do narrador rico que elogia o trabalho.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AToma o discurso de Brás como proposta da obra, mas Machado o ironiza e Quincas recusa o trabalho.
  • BAtribui ao romance a defesa da meritocracia, quando a ironia expõe a hipocrisia do narrador.
  • CQuincas Borba aparece como mendigo, não como representante da classe média.

Assunto: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

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Ver como caiu na prova Questão 86 no caderno Q da UNICAMP 2016

Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2016. Prova oficial ↗