Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2013
No excerto abaixo, narra-se parte do encontro de Brás Cubas com Quincas Borba, quando este, reduzido à miséria, mendigava nas ruas do Rio de Janeiro:
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, — a menos limpa, — e dei-lha [a Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.
— In hoc signo vinces!* bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis.
— Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu.
— Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
— Trabalhando, concluí eu.
*“In hoc signo vinces!”: citação em latim que significa “Com este sinal vencerás” (frase que teria aparecido no céu, junto de uma cruz, ao imperador Constantino, antes de uma batalha).
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
a) Tendo em vista a autobiografia de Brás Cubas e as considerações que, ao longo de suas Memórias póstumas, ele tece a respeito do tema do trabalho, comente o conselho que, no excerto, ele dá a Quincas Borba: “— Trabalhando, concluí eu”.
b) Tendo, agora, como referência, a história de D. Plácida, contada no livro, discuta sucintamente o mencionado conselho de Brás Cubas.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
a) O conselho é irônico e revela a incoerência de Brás Cubas. Ele nunca trabalhou: viveu de herança e de rendas da família, formou-se em Coimbra sem real dedicação e não exerceu profissão. Seus projetos de ascensão (ministro, deputado, o emplasto Brás Cubas) nasceram da vaidade e do desejo de notoriedade, não de necessidade ou de esforço produtivo. Nas Memórias, ele trata o trabalho com desdém, como algo de gente de condição inferior, e não como valor. O capítulo do "delírio" e o célebre fecho do livro ("não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria") reforçam a visão cética. Assim, ao mandar Quincas "trabalhar", Brás fala do alto de sua posição de classe privilegiada, com moralismo cômodo e superioridade de quem nunca precisou fazê-lo. Ao mesmo tempo, o conselho deixa ver o egoísmo e a hipocrisia da elite: ele dá cinco mil-réis, a nota "menos limpa", e sente nojo do mendigo, em vez de solidariedade. O conselho é hipócrita: quem nunca trabalhou e viveu de rendas prega o trabalho a um miserável, com superioridade social e sem solidariedade.
b) D. Plácida é a pobre que de fato trabalhou a vida inteira: costureira, doceira, agregada, criada, sempre em condição dependente e precária. Filha de pais humildes e sem recursos, nunca conseguiu escapar da miséria apesar do esforço. Ela ainda acaba servindo de "cobertura" aos amores adúlteros de Brás e Virgília, aceitando a função de intermediária em troca de segurança material, e termina doente e pobre, morrendo num hospital, sem reconhecimento. Sua história mostra que o trabalho, numa sociedade desigual e escravista, não garante ascensão nem dignidade: pobres como ela trabalham sem sair da miséria, enquanto Brás vive bem sem trabalhar. O conselho, portanto, é falso e superficial, pois ignora as causas sociais da pobreza (dependência, favor, falta de oportunidades) e atribui à falta de vontade individual o que é estrutural. A trajetória de Plácida desmente a ideia de que trabalho leva ao sucesso e acentua a crítica machadiana à hipocrisia das classes dominantes. O conselho é desmentido por D. Plácida: ela trabalhou sempre e permaneceu pobre e dependente, mostrando que o trabalho não basta numa sociedade desigual e de favor.
Assuntos: Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, crítica social e trabalho.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova