PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 87 da UNICAMP 2016

1ª fase · Literatura: Romantismo português

(...) plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, *macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai: reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. – No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?
*Macadamizar: pavimentar.

(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p.77.)

Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.

(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Ateliê Editorial, 2012, p.190.)

Vários discursos organizam a estrutura narrativa do romance Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. Isso permite afirmar que a visão de mundo dessa narrativa

  1. A
    compartilha exclusivamente dos valores éticos dos ricos e é demagógica com a miséria social, marca inconfundível do romance de Garrett.
  2. B
    relativiza posições dogmáticas sobre a vida social, cultural e política, permitindo vários ângulos de observação.
  3. C
    denuncia as condições sociais injustas dos pobres da sociedade, o que indica o caráter panfletário do romance de Garrett.
  4. D
    divide o mundo entre ricos e pobres e não leva em consideração que uma vida justa depende da riqueza produzida na sociedade.
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Resolução comentada

A questão pede a consequência de o romance ser organizado por vários discursos (digressões políticas, filosóficas, sentimentais, a novela de Joaninha, o diário de viagem). Em Viagens na minha terra, o narrador conversa com o leitor, muda de assunto, ironiza e se contradiz. Por isso a obra não defende uma única tese fechada.

Os dois trechos mostram isso:

  1. No primeiro, o narrador critica o utilitarismo e o industrialismo burgueses, que reduzem tudo a "cifras" e "equações de interesse". Ele usa a ironia, com imperativos como "plantai batatas" e "agiotai".
  2. No segundo, ele contrapõe o "paraíso de delícias" de Deus ao "inferno de tolices" da sociedade, num tom ao mesmo tempo moral, religioso e irônico.

São ângulos diferentes (econômico, moral, religioso, estético) sobre o mesmo mundo. O texto não se fecha em dogma, nem do lado dos ricos, nem do lado de um programa político.

Como o enunciado liga a pluralidade de discursos à visão de mundo, a conclusão é que a narrativa relativiza posições dogmáticas e permite vários pontos de vista.

Alternativa B.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AOs trechos criticam os ricos e o enriquecimento à custa da miséria, então não há adesão exclusiva aos valores deles.
  • CA denúncia social aparece, mas reduzir o romance a panfleto ignora a pluralidade de discursos, digressões e ironia.
  • DO narrador não ignora a produção de riqueza nem divide o mundo de forma simplista; ele questiona o custo humano dela, e a afirmação contradiz a pluralidade de discursos.

Assunto: Romantismo português.

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Este texto também caiu em

Ver como caiu na prova Questão 87 no caderno Q da UNICAMP 2016

Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2016. Prova oficial ↗