PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 12 (Português e Inglês) da 2ª fase do IME 2023
Texto-base das questões 12 a 20 · Português e Inglês
Texto 2
PENSAR A CIBERGUERRA
A ideia de ciberguerra tem sido questionada por alguns estudiosos, tanto militares quanto civis. Para Thomas Rid, por exemplo, não houve até o momento qualquer ciberataque que possa enquadrar na clássica definição de Clausewitz1 para o “ato de guerra”. Para o pensador prussiano, basicamente se pode classificar como ato de guerra algo relacionado a ações violentas. Além disso, o ato de guerra é sempre “instrumental”, isto é, através da violência física ou da ameaça do uso da força é possível impelir o inimigo a realizar aquilo que o atacante deseja. E ainda não se deve esquecer uma terceira característica do ato de guerra: o ataque deve ser algum tipo de ideia-noção ou intenção de meta política. Um dos problemas apresentados aqui é pensar aquilo que se entende por “violência”. Nesse caso, conforme Jarno Limnéll, estamos lidando com um conceito ambíguo, que agrega mais do que causas físicas ou a morte.
A ciberguerra compõe parte daquilo que alguns chamam de “guerra não convencional”. A ocorrência de um incidente envolvendo ataques à rede de um determinado país logo desperta comparações com a vasta filmografia sobre “revoltas de computadores”, sobre os indomáveis hackers. Mas, ao contrário, talvez fosse interessante diminuir os excessos sobre o assunto e trazê-lo cuidadosamente para o lugar da história.
O texto “Cyberwar is coming!”, de John Arquilla e David Ronfeldt, foi um dos primeiros a apontar a sin- gularidade de novos modos de conflito. Publicado pela Rand Corporation, agência reconhecida por subsidiar o Departamento de Defesa norte-americano, o trabalho da dupla repercutiu ao apresentar a necessidade de pensar as tecnologias da informação como aspecto central nas novas estratégias militares. Arquilla e Ronfeldt destacam a necessidade de conhecer o campo inimigo, revelam inspiração nos mongóis do século XIII, afirmam a importância de considerar a relação histórica entre mudanças tecnológicas e novas formulações para as doutrinas militares.
Anos depois, a mesma dupla de pesquisadores publicaria outro trabalho, procurando delimitar aquilo a que chamaram de netwar, a guerra em rede. Para eles, esse modo de conflito ganharia preponderância, haja vista que, para levar adiante uma ciberguerra, seria necessária uma quantidade maior de recursos financeiros e um repertório menor de artefatos a serem utilizados. A netwar seria típica de conflitos de baixa intensidade, sendo perceptível com maior nitidez nas ações de grupos como o Hamas e os zapatistas.
Provavelmente, a diferença mais visível entre os dois tipos de conflito, ciberguerra e guerra em rede, possa ser observada no fato de que o primeiro exige o uso de ambientes cibernéticos, enquanto o segundo não. Sendo assim, as ciberguerras apresentam um maior potencial para serem empreendidas por agentes estatais, embora isso não seja uma regra. Os formatos em torno da ciberguerra também evidenciam a necessidade do uso das redes de computadores para que os resultados esperados sejam atingidos.
Nye Jr. chama a atenção para a força que os conflitos cibernéticos ganharam neste século. O fato de possibilitarem a participação de agentes não estatais e a inserção cada vez mais profunda dos computadores e softwares na vida cotidiana somente reforça a necessidade de considerarmos os influxos desse tipo de ação. Evidentemente, acompanhar a ideia de que existe ciberguerra envolve a compreensão das semelhanças e diferenças em relação ao que classicamente consideramos uma guerra.
Numa guerra do tipo clássico, o aspecto físico exerce papel fundamental. Deve-se levar em conta o preparo de tropas fisicamente saudáveis, habilidosas no manejo de armamentos e com a possibilidade de movimentação em diferentes terrenos. Em tal modalidade de guerra, os combates tendem a cessar a partir da exaustão das tropas ou por seu desgaste. Por um lado, os governos dispõem de um quase monopólio do uso da força em larga escala, e os defensores precisam conhecer muito bem o terreno de movimentação. Além disso, é preciso considerar que um combate desse tipo requer consideráveis recursos de manutenção, mobilidade e investimentos financeiros. Afinal de contas, deslocar tropas do Atlântico Norte para o Pacífico ou da América do Sul para a África exige tempo e considerável gasto com combustíveis, entre outros.
Toda essa situação ganha contornos diferentes na ciberguerra. Nela podem atuar diversos atores, estatais e não estatais, identificados e anônimos. A distância física é quase irrelevante, o ataque se sobrepõe à defesa, já que a rede mundial de computadores não foi pensada como algo a ser necessariamente defendido. Outra característica está no fato de que a parte maior, e oficialmente mais poderosa, tem capacidade limitada para desarmar ou destruir o inimigo, ocupar o território ou usar efetivamente estratégias de força contrária.
Em 2014, por exemplo, nos confrontos entre a Rússia e a Ucrânia, o sistema de comunicações via telefone celular ucraniano foi atacado. A companhia Ukrtelecom teve suas instalações invadidas por homens armados que danificaram cabos de fibra ótica, comprometendo seriamente o fornecimento do serviço. Por outro lado, grupos de hackers ucranianos, a exemplo do Cyber-Berkut, atacaram as páginas russas. O site da agência de comunicação estatal Russia Today foi invadido e nele a palavra “russos” foi substituída por “nazistas”.
Justamente por suas características, trata-se de um conflito que mais frequentemente se desenvolve nas sombras, com certa discrição. Se há cibercomandos, eles são anunciados sempre como unidades de função defensiva, não de ataque. Ao mesmo tempo, é importante pensar que as intervenções cibernéticas podem servir como ato de abertura de uma guerra mais convencional. Dito de outro modo, um ataque cibernético pode ser o primeiro passo em uma ação maior.
LEÃO, Kari; SILVA, Francisco. Por que a guerra?: Das batalhas gregas à ciberguerra - uma história da violência entre os homens. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018, p. 469 - 472 (texto adaptado).
1 Carl Von Clausewitz (1790 – 1831) – foi um experiente militar prussiano, especialista em estratégias de batalhas e considerado um grande teórico devido às suas definições amplamente difundidas sobre a guerra.
Segundo o texto 2, é correto afirmar que
- Aa ciberguerra costuma acontecer em conflitos de baixa intensidade, nas ações de grupos como os zapatistas e o Hamas.
- Ba ciberguerra é um tipo de guerra não convencional que transcorre nos meios cibernéticos, sendo empreendida por agentes estatais.
- Ca ciberguerra prescinde da proximidade física, priorizando os ataques cibernéticos que ocorrem nas sombras com grande discrição.
- Da ciberguerra pode ser utilizada no final dos conflitos armados de grande duração, da chamada guerra convencional, descrita por Clausewitz.
- Ea ciberguerra assemelha-se à guerra em rede por utilizar soldados e civis versados nas tecnologias de informação e por exigir uma quantidade menor de recursos financeiros.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Vamos conferir cada alternativa com o que o texto diz.
O texto distingue ciberguerra de netwar (guerra em rede). A netwar é típica de conflitos de baixa intensidade, como os do Hamas e dos zapatistas, e exige menos recursos. A ciberguerra exige ambientes cibernéticos e tem maior potencial de ser feita por agentes estatais, "embora isso não seja uma regra".
Sobre a ciberguerra, o texto afirma que:
- a distância física é "quase irrelevante", ou seja, ela dispensa a proximidade física;
- o conflito "mais frequentemente se desenvolve nas sombras, com certa discrição";
- os ataques cibernéticos podem ser o primeiro passo de uma guerra convencional, e não o final.
A alternativa C reúne exatamente esses pontos: "prescinde" significa dispensa, e a discrição aparece no último parágrafo.
As demais atribuem à ciberguerra características de outro conceito, ou contradizem o texto: A mistura com a netwar; B torna os agentes estatais exclusivos; D coloca o ataque no final do conflito; E diz que ela exige menos recursos, o que é da netwar.
Alternativa C.
Pegadinha: A alternativa A engana por trazer um dado do texto (baixa intensidade, Hamas e zapatistas) associado ao conceito errado: é da netwar, não da ciberguerra.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AAtribui à ciberguerra o que o texto diz da netwar (baixa intensidade, Hamas e zapatistas).
- BO texto diz que agentes estatais são mais prováveis, mas não é uma regra; também participam agentes não estatais.
- DO texto diz que o ataque cibernético pode abrir uma guerra convencional, não encerrá-la.
- EMenor recurso financeiro é característica da netwar; a ciberguerra exige mais recursos e a comparação não fala de soldados.
Assunto: Tema, ideia central e informações explícitas.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova
Fonte: IME 2ª fase 2023 · Português e Inglês. Prova oficial ↗