Questão 62 da FUVEST 2016
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 61 A 63
Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem
[horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
No texto de Drummond, o eu lírico
- Aconsidera sua origem itabirana como causadora de deficiências que ele almeja superar.
- Brevela-se incapaz de efetivamente comunicar-se, dado o caráter férreo de sua gente.
- Cironiza a si mesmo e satiriza a rusticidade de seu passado semirrural mineiro.
- Ddirige-se diretamente ao leitor, tornando assim patente o caráter confidencial do poema.
- Ecritica, em chave modernista, o bucolismo da poesia árcade mineira.
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Resolução comentada
O poema é uma "confidência": o eu lírico fala de si e de sua formação em Itabira, cidade do ferro, e transforma o ferro em metáfora de seu temperamento ("triste, orgulhoso: de ferro"). Ele lamenta o "alheamento do que na vida é porosidade e comunicação", mas não pretende se livrar disso. Chama o sofrimento de "doce herança" e termina dizendo que Itabira, hoje só "fotografia na parede", ainda dói. Há apego, não desejo de superação.
Análise das alternativas:
- A está errada: o eu lírico reconhece as marcas de Itabira, mas as trata como herança afetiva, sem querer superá-las.
- B está errada: o alheamento é um traço que ele admite, mas o poema é justamente uma comunicação, dirigida a um "te".
- C está errada: o tom não é satírico. Há ironia leve ("o hábito de sofrer, que tanto me diverte"), mas o passado não é ridicularizado, e termina em dor sincera.
- D está certa: em "prendas diversas que ora te ofereço", o eu lírico se dirige a um interlocutor, com verbo e pronome de segunda pessoa. Isso materializa o caráter confidencial do título.
- E está errada: não há crítica ao Arcadismo no texto, e o tema é memória e identidade, não polêmica literária.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO eu lírico trata a origem como herança afetiva e dolorosa, sem desejo de superá-la.
- BO poema é um ato de comunicação com um interlocutor ("te ofereço"), então não há incapacidade total de comunicar-se.
- CA ironia é pontual e não há sátira do passado rústico; predomina a dor afetiva ("Mas como dói!").
- EO texto não faz crítica ao bucolismo árcade; nem trata de polêmica literária.
Assuntos: Carlos Drummond de Andrade, interpretação de poema, modernismo.
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