Questão 61 da FUVEST 2016
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 61 A 63
Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem
[horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
Tendo em vista que o poema de Drummond contém referências a aspectos geográficos e históricos determinados, considere as seguintes afirmações:
I. O poeta é “de ferro” na medida em que é nativo de região caracterizada pela existência de importantes jazidas de minério de ferro, intensamente exploradas.
II. O poeta revela conceber sua identidade como tributária não só de uma geografia, mas também de uma história, que é, igualmente, a da linhagem familiar a que pertence.
III. A ausência de mulheres de que fala o poeta refere-se à ampla predominância de população masculina, na zona de mineração intensiva de que ele é originário.
Está correto o que se afirma em
- AI, somente.
- BIII, somente.
- CI e II, somente.
- DII e III, somente.
- EI, II e III.
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Resolução comentada
Vamos avaliar cada afirmação com base no texto.
I está correta. Itabira fica em Minas Gerais, região de grandes jazidas de minério de ferro, exploradas intensamente. O poema cita "noventa por cento de ferro nas calçadas" e "esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil". A expressão "de ferro" liga o eu lírico à geografia e à economia da terra natal.
II está correta. O poeta diz que sua identidade vem de Itabira, que é lugar, mas também história: "Tive ouro, tive gado, tive fazendas" lembra a prosperidade passada da família, que hoje se reduz a "uma fotografia na parede". Há ainda a "doce herança itabirana". Ou seja, a identidade vem da geografia e da história, inclusive da linhagem familiar.
III está incorreta. As "noites brancas, sem mulheres e sem horizontes" expressam a solidão, a falta de afeto e de perspectivas, em sentido figurado, ligado à "vontade de amar" que paralisa o poeta. O texto não fala em predominância demográfica masculina na zona de mineração. Essa leitura literal é uma interpretação que o poema não sustenta.
Assim, só I e II estão corretas.
Alternativa C.
Pegadinha: A afirmação III engana ao tomar "sem mulheres" ao pé da letra, como dado demográfico, quando o verso expressa solidão e carência afetiva.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AIgnora que a afirmação II também é válida: a identidade do poeta ligada à história e à linhagem familiar (ouro, gado, fazendas).
- BConsidera correta apenas a III, que é uma leitura literal indevida, e descarta I e II, que são corretas.
- DInclui a III, que lê literalmente a ausência de mulheres, e exclui a I, que é claramente sustentada pelo poema.
- EInclui a III, que transforma o sentido figurado de solidão e falta de afeto em dado demográfico.
Assuntos: interpretação de poema, Carlos Drummond de Andrade, modernismo.
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