Questão 63 da FUVEST 2016
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 61 A 63
Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem
[horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo.
Na última estrofe, a expressão que justifica o uso da conjunção sublinhada no verso “Mas como dói!” é:
- A“Hoje”.
- B“funcionário público”.
- C“apenas”.
- D“fotografia”.
- E“parede”.
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Resolução comentada
A conjunção "mas" indica oposição: ela liga duas ideias em que a segunda contraria uma expectativa criada pela primeira.
No verso anterior, "Itabira é apenas uma fotografia na parede", o eu lírico diz que a cidade ficou reduzida a uma imagem decorativa, sem importância prática, algo superado e distante. O que se espera de alguém que fala assim é indiferença, já que Itabira seria só um objeto na parede.
É aí que entra o "Mas como dói!": apesar de a cidade ser "apenas" uma fotografia, a dor continua intensa. A oposição nasce da diminuição que o poeta tenta fazer, e quem marca essa diminuição é o advérbio "apenas", que restringe e minimiza o valor da fotografia.
As outras expressões não criam esse contraste sozinhas:
- "Hoje" marca o tempo, o contraste com o passado de ouro, gado e fazendas, e não com a dor.
- "funcionário público" descreve a condição atual do eu lírico.
- "fotografia" e "parede" só dizem onde e como Itabira permanece; é o "apenas" que reduz a cidade a isso e, por isso, pede o "mas".
Portanto, a palavra que justifica o "mas" é "apenas".
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- A"Hoje" só marca o contraste temporal com o passado de riqueza, não com a dor expressa no último verso.
- B"funcionário público" indica a situação atual do eu lírico e não se opõe diretamente à dor.
- D"fotografia" é o que Itabira virou, mas sem o "apenas" não haveria ideia de redução a contrariar.
- E"parede" é apenas o lugar da fotografia e não gera oposição com "como dói".
Assuntos: conjunção adversativa, interpretação de poema, Drummond.
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