Questão 12 da 2ª fase da FUVEST 2017

2º dia

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

[...]

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias, Primeiros cantos.

Canto do regresso à pátria

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

[...]

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.

Oswald de Andrade, Pau-Brasil.

a) Considerando que os poemas foram escritos, respectivamente, em 1843 e 1924, caracterize seus contextos históricos sob os pontos de vista político e social.

b) Comparando os dois poemas, indique uma diferença estética e uma diferença ideológica entre ambos.

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Resolução comentada

a) O poema de Gonçalves Dias (1843) nasce no Brasil independente, no Segundo Reinado, de Pedro II. Era um momento de consolidação do Estado monárquico e de construção da identidade nacional, o que levou o Romantismo a buscar símbolos próprios: natureza exuberante, o indígena, a pátria idealizada. Socialmente, o país era agrário, escravista e exportador (café), com a elite letrada concentrada em poucos centros. Gonçalves Dias escreveu a canção em Coimbra, estudando em Portugal, e o exílio individual alimenta o nacionalismo saudosista.

O poema de Oswald (1924) pertence à República Velha, dominada pela política do café com leite (oligarquias paulista e mineira), pelo coronelismo e pelo voto de cabresto. A escravidão já havia acabado, mas persistiam desigualdades profundas. Socialmente, São Paulo se industrializava e se urbanizava, com imigrantes e operariado, e havia agitações como as greves de 1917 e o tenentismo (1922 e 1924). Culturalmente, a Semana de Arte Moderna (1922) buscava renovar a arte e repensar o país. Oswald escreve em viagem à Europa, mas valoriza a modernização paulista.

Resposta: em 1843, o Brasil monárquico, agrário e escravista buscava identidade nacional; em 1924, o Brasil republicano oligárquico, urbanizando-se e industrializando-se, vivia crise política e renovação cultural modernista.

b) Diferença estética: Gonçalves Dias usa o Romantismo, com redondilha maior regular, rimas nos versos pares, linguagem sentimental e idealizada. Oswald, modernista, adota versos livres, sem rima regular, linguagem coloquial, concisão e humor. A paródia usa o poema de Dias como base, mas o subverte.

Diferença ideológica: o poema romântico exalta a natureza (palmeiras, sabiá, estrelas) como fonte de orgulho e saudade, num nacionalismo ufanista e idealizado. Oswald desloca o valor para a modernidade urbana e econômica: "Rua 15", "progresso de São Paulo", "mais ouro". Há ironia crítica ao ufanismo e à riqueza, e uma visão que mistura o primitivo (palmares, mar) com o progresso, sem idealizar a natureza.

Resposta: esteticamente, versos regulares e rimados no Romantismo contra versos livres, coloquiais e irônicos no Modernismo; ideologicamente, exaltação da natureza e nostalgia contra valorização do progresso urbano e paródia crítica do ufanismo.

Assuntos: romantismo, modernismo, intertextualidade e paródia.

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