Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2015

1º dia · Português

Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Almeida Garrett, Viagens na minha terra.

a) Destas reflexões feitas pelo narrador de Viagens na minha terra, deduz-se que ele tinha em mente um determinado ideal de sociedade. O que caracteriza esse ideal? Explique resumidamente.

b) Identifique, em Viagens na minha terra, o tipo social sobre o qual, principalmente, irá recair a crítica presente nas reflexões do narrador, no trecho aqui reproduzido. O que, de acordo com o livro, caracteriza esse tipo social?

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Resolução comentada

a) O trecho é uma crítica à lógica do lucro e do cálculo utilitário ("reduzi tudo a cifras", "equações de interesse corporal"), segundo a qual a riqueza de poucos é produzida pela miséria de muitos. Por oposição, o narrador tem em mente uma sociedade em que o valor humano não se reduza ao interesse material, em que a riqueza seja menos concentrada e menos custosa em termos humanos, e em que haja justiça social e dignidade (trabalho não desproporcionado, instrução, moralidade). É um ideal de sociedade solidária e humanitária, com preocupação moral e social, e não regida pelo egoísmo do enriquecimento. Isso se liga ao pensamento liberal-romântico de Garrett, que critica os excessos do capitalismo industrial inglês (o Parlamento, Sir Robert Peel).

Resposta: uma sociedade mais justa e solidária, em que o ser humano valha mais que o lucro e a riqueza de poucos não dependa da miséria da maioria.

b) A crítica recai principalmente sobre o barão (o "barão" capitalista, ex-agente de D. Carlos/ liberalismo oportunista), isto é, o novo-rico burguês. No livro, esse tipo social (representado pelo Barão, que enriqueceu como fornecedor/agiota no contexto da guerra civil e da venda dos bens nacionais) caracteriza-se pelo materialismo e pelo oportunismo: enriquece sem escrúpulos, explorando o povo e os negócios da revolução liberal, move-se só pelo interesse e pelo dinheiro, é desprovido de ideais, de sensibilidade e de cultura, e disfarça-se de fidalgo para ganhar prestígio. O narrador vê nele o oposto do ideal romântico e patriótico.

Resposta: o barão, o burguês enriquecido e oportunista, materialista, sem escrúpulos nem ideais, que prospera à custa dos outros e do interesse próprio.

Assuntos: almeida garrett, viagens na minha terra, crítica social.

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