Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da FUVEST 2015

1º dia · Português

Responda ao que se pede.

a) Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do “Humanitismo”, tal como figurado nas Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e as correntes de pensamento filosófico e científico presentes no contexto histórico-cultural em que essa obra foi escrita? Explique resumidamente.

b) De que maneira, em O cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas as correntes de pensamento filosófico e científico de grande prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique sucintamente.

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Resolução comentada

a) O Humanitismo, criado por Quincas Borba, é uma paródia das correntes filosóficas e científicas dominantes na segunda metade do século XIX: o positivismo, o evolucionismo de Darwin e Spencer, o determinismo e o cientificismo em geral. Essas teorias pretendiam explicar a sociedade com leis naturais. O Humanitismo imita esse tom de "sistema total" e de explicação universal, mas o leva ao absurdo. Para Quincas Borba, a Humanitas é o princípio único de tudo, e o sofrimento, a guerra e a fome são justificados como necessários. A célebre fórmula "ao vencedor, as batatas" ecoa a seleção natural e a luta pela sobrevivência. A teoria serve para legitimar o egoísmo e a desigualdade e para consolar os vencedores, o que mostra o seu cinismo. Machado ironiza, assim, o otimismo e a pretensão científica da época, além do uso dessas teorias como justificativa de privilégios das elites. A ironia se completa porque Quincas Borba enlouquece e porque Brás Cubas aplica o sistema a seu favor.

O Humanitismo é uma paródia satírica do positivismo, do evolucionismo e do determinismo, com a qual Machado critica o cientificismo e o uso dessas teorias para justificar a desigualdade.

b) Em O cortiço, Aluísio Azevedo, escritor naturalista, adota essas correntes (determinismo, evolucionismo, darwinismo social, positivismo e as teorias de raça e meio) como método de construção do romance. Ele as encara com credibilidade, como explicações para o comportamento humano. O meio (o cortiço, o calor, a promiscuidade), a raça (o português, o negro, o mulato) e o momento histórico condicionam as personagens. Por isso os indivíduos são tratados como casos observáveis, movidos por instintos e impulsos fisiológicos, e a coletividade do cortiço aparece como um organismo que reage ao ambiente. Jerônimo, por exemplo, "degenera" ao se adaptar ao clima e à mulata Rita Baiana, e Miranda e João Romão são movidos pela ambição de ascender. Diferentemente de Machado, não há distanciamento irônico em relação às teorias: elas estruturam a narrativa e são aceitas como verdades científicas.

O romance assume essas correntes sem ironia, como base científica para explicar as personagens pelo meio, pela raça e pelos instintos.

Assuntos: machado de assis, aluísio azevedo, realismo e naturalismo.

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