Questão 118 do ENEM PPL 2015
O peru de Natal
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, duma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
ANDRADE, M. In: MORICONI, I. Os cem melhores contos brasileiros do século.
São Paulo: Objetiva, 2000 (fragmento).
No fragmento do conto de Mário de Andrade, o tom confessional do narrador em primeira pessoa revela uma concepção das relações humanas marcada por
- Adistanciamento de estados de espírito acentuado pelo papel das gerações.
- Brelevância dos festejos religiosos em família na sociedade moderna.
- Cpreocupação econômica em uma sociedade urbana em crise.
- Dconsumo de bens materiais por parte de jovens, adultos e idosos.
- Epesar e reação de luto diante da morte de um familiar querido.
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Resolução comentada
O narrador conta, em tom confessional, que a família era "feliz" apenas de forma abstrata: sem crimes, sem brigas, sem dificuldades econômicas. Mas o pai, de natureza cinzenta, sem lirismo e "acolchoado no medíocre", nunca permitiu o gosto pelos prazeres da vida (um vinho bom, uma geladeira). Ele é chamado de "puro-sangue dos desmancha-prazeres".
A morte do pai é vista como algo que trouxe "consequências decisivas para a felicidade familiar", ou seja, abriu caminho para a família viver com mais alegria.
O que o narrador revela, portanto, é uma relação marcada pelo distanciamento entre o estado de espírito do pai (contido, sério, rígido) e o dos filhos (que desejavam aproveitar a vida). Esse afastamento nasce da diferença de geração e de temperamento: o pai era o modelo austero, os filhos queriam o prazer.
Conferindo as demais: o trecho não fala de festas religiosas, não trata de crise urbana, não mostra consumo por todas as idades e, longe de lamentar o pai, o texto o critica.
Alternativa A.
Pegadinha: A alternativa E engana ao associar a menção à morte do pai a sentimento de luto, quando o tom do narrador é crítico.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BO Natal é só o marco temporal; o fragmento não discute a relevância dos festejos religiosos.
- CO texto diz que não havia graves dificuldades econômicas nem fala de crise urbana.
- DOs bens materiais são desejo dos filhos, ausente no pai; não há consumo generalizado por todas as idades.
- EO narrador não demonstra luto nem pesar; critica o pai e vê a morte como abertura para a felicidade.
Assuntos: interpretação de texto, narrador em primeira pessoa, Mário de Andrade.
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