PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 3 (CFS 2) da EEAR 2026
Texto-base das questões 01 a 04 · CFS 2
O Peru de Natal
Mario de Andrade
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. [...] devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais [...]. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.
[...] Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes [...] a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”: — Bom, no Natal, quero comer peru. Houve um desses espantos que ninguém não imagina. [...]
Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. [...]
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...] Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever “felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.
Texto extraído do livro “Nós e o Natal”, Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.
As questões de 01 a 04 referem-se ao texto acima.
– De acordo com o texto, qual a simbologia associada à ave natalina após a morte do pai?
- AIndica a prosperidade econômica da família.
- BReflete a continuidade das tradições familiares.
- CRepresenta a hipocrisia das celebrações familiares.
- DApresenta a ruptura com o patriarcalismo e a ressignificação das relações familiares.
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Resolução comentada
A pergunta pede o que o peru passa a simbolizar depois da morte do pai.
Primeiro, veja como era a vida antes. O pai é descrito como "cinzento", "desmancha-prazeres", sem lirismo, "acolchoado no medíocre". A ceia seguia o gosto dele: castanhas, figos e passas, uma "ceia reles". Era ele quem impunha o padrão da casa, e faltava à família o "gosto pelas felicidades materiais".
Depois da morte, o narrador propõe comer peru. Esse prato antes era de festa para os parentes, e as mães se esgotavam trabalhando para eles, sem provar quase nada.
Agora o peru é comido "no recesso da família", só entre eles, e traz uma "felicidade maiúscula". O narrador diz que ali começou "um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si".
Assim, o peru marca duas coisas:
- a ruptura com o modelo austero e rígido do pai, que era a figura de autoridade;
- a reorganização dos laços familiares em torno do prazer e do afeto, o que é uma ressignificação das relações.
Isso corresponde à alternativa que fala de ruptura com o patriarcalismo e ressignificação das relações familiares.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto trata de felicidade e afeto, não de prosperidade econômica; o peru não indica riqueza.
- BO peru rompe com a tradição da ceia frugal e com a dos parentes invadindo a casa, não a continua.
- CNão há hipocrisia: a celebração descrita é sincera, uma felicidade genuína e maiúscula.
Assunto: Modernismo: Semana de 22 e primeira geração.
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Fonte: EEAR 2026 · CFS 2. Prova oficial ↗