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Questão 4 (CFS 2) da EEAR 2026

CFS 2 · Português · Literatura: Modernismo: Semana de 22 e primeira geração

Texto-base das questões 01 a 04 · CFS 2

O Peru de Natal

Mario de Andrade

O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de consequências decisivas para a felicidade familiar. [...] devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais [...]. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

[...] Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes [...] a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”: — Bom, no Natal, quero comer peru. Houve um desses espantos que ninguém não imagina. [...]

Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. [...]

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...] Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever “felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Texto extraído do livro “Nós e o Natal”, Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.

As questões de 01 a 04 referem-se ao texto acima.

– Considerando o entendimento do texto, avalie os trechos abaixo e assinale a alternativa que não corresponde a uma atitude ou uma experiência hipócrita vivenciada pela família.

  1. A
    “Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes [...] a gente se abraçava e ia pra cama.”
  2. B
    “Minhas três mães, três dias antes, já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir.”
  3. C
    “Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces.”
  4. D
    “Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar, e foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família (…)."
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

A questão pede o trecho que não mostra hipocrisia, isto é, aquele em que não há fingimento, aparência ou interesse disfarçado. Vamos testar cada trecho.

Hipocrisia, aqui, é agir de modo que esconde a verdade ou se contradiz com o que se sente ou se diz.

  1. Trecho A: a família cumpre a ceia modesta "tipo meu pai", comendo castanhas e figos, e se abraça por obrigação do costume. É um ritual vazio, mantido por tradição e pela vontade do pai, sem prazer real. Há aparência de festa sem felicidade.
  2. Trecho B: as mães se esgotam no preparo, e os parentes devoram tudo e ainda levam embrulhos. Os parentes só vêm pelo que há para comer, e a união familiar é só fachada. Isso é hipocrisia.
  3. Trecho C: os parentes invadem a casa "por causa do peru, das empadinhas e dos doces". O motivo declarado seria o afeto, mas o real é o banquete. Isso também é interesse disfarçado.
  4. Trecho D: depois da morte do pai, a família come o peru sozinha. O narrador fala de "felicidade maiúscula" e de "amor de todos", sem os parentes distraidores. É a experiência autêntica, a verdadeira união familiar, o oposto da hipocrisia.

Portanto, o trecho D é o único que não retrata atitude hipócrita, e sim sinceridade e afeto genuíno.

Alternativa D.

Pegadinha: A pergunta usa "não" (qual não é hipócrita), então quem procura o trecho hipócrita erra; a D é a única de afeto sincero.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ARetrata o ritual de ceia mantido por costume, com abraços sem prazer real, uma aparência de festa.
  • BMostra os parentes que só aproveitam o banquete e levam embrulhos enquanto as mães se exaurem, uma união de fachada.
  • CMostra que os parentes vêm pelo peru e pelos doces, não pelo afeto, interesse disfarçado de convívio.

Assunto: Modernismo: Semana de 22 e primeira geração.

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