PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 78 da UNICAMP 2016
Leia com atenção o texto abaixo.
Nunca conheci quem tivesse sido tão feliz como nas redes sociais
(...) Eu tenho inveja de mim no Instagram.
(…) Eu queria ser feliz como eu sou no Instagram.
Eu queria ter certeza, como eu tenho no Facebook, sobre as minhas posições políticas.
E no Twitter, bem, no Twitter eu não sou tão feliz nem certa e é por isso que de longe essa ganha como rede social de mi corazón.
E quanto mais eu me sinto angustiada (quem nunca?), mais eu entro no Instagram e vejo a foto das pessoas superfelizes. E mais angustiada eu fico. Por mais que eu saiba que aquela felicidade é de mentira.
Outro dia uma editora de moda que faz muito sucesso no Instagram escreveu em uma legenda: "até que estou bem depois de tomar um stillnox e um rivotril." (!!!!! Gente!) Mas ufa, ela assumiu. Até então, seus seguidores talvez pudessem achar que ela era uma super-heroína que nunca tinha levado porrada (nem conhecido quem tivesse tomado). Ela viaja de um lado para o outro, acorda cedo, mas tem uma decoração linda na mesa, viaja de país em país. Trabalha loucamente. Mas ela sempre está disposta e apaixonada pelo que faz.
Escuta! Quanta mentira! Nenhuma de nós está apaixonada o tempo todo pelo que faz. Eu, hoje, escrevi esse texto com muito esforço. Eu, hoje, estou achando que eu escrevo mal e que perdi o jeito para a coisa. Quem nunca? Quem nunca muitas vezes?
Quem estamos querendo enganar? A gente. Mas tem vezes, como agora, em que não dá. Eu queria muito voltar no tempo quando as redes sociais não existiam só para lembrar como era… Às vezes eu acho que, com todas as vantagens da vida em rede…, talvez a gente se sentisse melhor. Sério. "Estou farto de semideuses. Onde é que há gente nesse mundo?", grita o Fernando Pessoa lá do túmulo.
(Adaptado de Nina Lemos, disponível em http://revistatpm.uol.com.br/blogs/berlimmandaavisar/2015/07/13/nunca-conheci-quem-tivesse-sido-tao-feliz-como-nas-redes-sociais.html.)
Considerando os recursos linguísticos e discursivos presentes na configuração do texto, é correto afirmar que:
- A“Nunca conheci quem tivesse sido tão feliz como nas redes sociais / Eu tenho inveja de mim no Instagram” é um enunciado que se espelha nos versos “Nunca conheci quem tivesse levado porrada / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”, do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, por meio do recurso ao paralelismo de estruturas sintáticas.
- BNo texto de Nina Lemos, alguns recursos linguísticos e discursivos são mobilizados de modo a promover um tipo particular de interação entre o produtor do texto e seus leitores por meio de diálogos entre personagens, pontuação com funções estilisticamente diversas, um léxico de natureza coloquial e perguntas retóricas.
- CBaseado no Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa, o texto de Nina Lemos apresenta argumentos para convencer seus leitores de que ela tem uma vida difícil em relação à de outras pessoas felizes que conhece pelo Instagram, e de que é possível mostrar a essas pessoas que a vida não é tão boa quanto parece.
- DO texto de Nina Lemos apresenta uma organização textual e sintática típica da esfera jornalística, que se caracteriza pelo uso de marcas de oralidade como o recurso a sequências de diálogos (“Quem estamos querendo enganar? A gente.”), o uso de marcadores discursivos (“bem”, “sério”) e de enunciados inseridos (“quem nunca?”).
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Resolução comentada
A questão pede os recursos linguísticos e discursivos que configuram o texto. Vamos testar cada alternativa contra o que o texto realmente faz.
O texto é uma crônica de blog, em tom de conversa com o leitor. Isso aparece em:
- Léxico coloquial: "Gente!", "levado porrada", "Escuta!", "ufa".
- Pontuação com funções variadas: os "!!!!!" e a interrogação com exclamação marcam espanto; os parênteses trazem comentários à parte ("quem nunca?"); o itálico dá ênfase (Quem nunca).
- Perguntas retóricas: "Quem nunca?", "Quem estamos querendo enganar?", "Onde é que há gente nesse mundo?". Elas não esperam resposta, mas aproximam a autora do leitor.
- Interação com o leitor: a autora se inclui ("a gente", "nenhuma de nós"), criando cumplicidade.
Agora, as outras alternativas:
- (A) O poema de Pessoa de fato é retomado no título, mas o enunciado de Lemos não se espelha nos versos por paralelismo sintático. Há retomada parcial ("Nunca conheci quem tivesse..."), e o segundo trecho, "Eu tenho inveja de mim", não tem a estrutura dos versos citados.
- (C) O texto não quer convencer ninguém de que a vida da autora é difícil nem mostrar às pessoas felizes que a vida não é boa. Ele critica a falsa felicidade das redes, incluindo a dela.
- (D) A organização típica do jornalismo é impessoal e objetiva. O texto é um blog opinativo e subjetivo. "Quem estamos querendo enganar? A gente." é pergunta e resposta, não sequência de diálogos.
A alternativa (B) tem um ponto frágil: não há "diálogos entre personagens" propriamente ditos. Mesmo assim, é a única que descreve corretamente a interação com o leitor, o léxico coloquial, a pontuação expressiva e as perguntas retóricas. As demais contêm erros de interpretação mais graves.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AOs enunciados de Lemos não reproduzem por paralelismo sintático os versos de Pessoa; há apenas retomada parcial da estrutura "Nunca conheci quem tivesse...".
- CO texto não busca convencer ninguém de que a vida da autora é difícil; critica a felicidade fingida das redes, inclusive a dela.
- DO texto é um blog opinativo e subjetivo, não tem organização jornalística típica, e "Quem estamos querendo enganar? A gente." é pergunta e resposta, não sequência de diálogos.
Assunto: Intertextualidade e comparação entre textos.
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Fonte: Comvest/Vestibular Unicamp 2016. Prova oficial ↗