Questão 12 (3º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2017
“Naquele lugar, a guerra tinha morto a história. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. (...) Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.
A estrada que agora se abre aos nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. (...)
Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. (...) Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro, parece ter perdido toda sua substância. O jovem se chama Muidinga. Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados”.
(Mia Couto, Terra sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 9-10.)
O trecho acima, escrito por Mia Couto, traz uma narrativa sobre o cenário de guerra de Moçambique pós-independência (1977-1992). A partir do texto, responda às questões abaixo.
a) O que são refugiados? Explique, relacionando-os ao processo moçambicano.
b) Apresente dois elementos históricos comuns a Angola e Moçambique, após a independência do domínio português.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) Refugiados são pessoas que deixam seu local de origem, muitas vezes atravessando fronteiras, para escapar de guerras, perseguições (políticas, étnicas, religiosas) ou violações graves de direitos humanos, e que dependem de proteção e assistência de outros Estados ou de organismos internacionais, como o ACNUR.
No caso moçambicano, a guerra civil (1977-1992) opôs o governo da FRELIMO, de orientação socialista e apoiado pela URSS, à RENAMO, guerrilha anticomunista apoiada pela Rodésia e depois pela África do Sul do apartheid. O conflito destruiu a infraestrutura e as lavouras e provocou fome e massacres de civis. Milhões de pessoas foram deslocadas, muitas vivendo em campos de refugiados dentro do país ou em países vizinhos (Malaui, Zimbábue, Tanzânia). É a situação de Tuahir e Muidinga, que fogem da guerra a pé, depois de saírem de um campo de refugiados.
Refugiados são pessoas forçadas a abandonar seu lugar de origem por guerra ou perseguição; em Moçambique, a guerra civil entre FRELIMO e RENAMO gerou milhões de deslocados e refugiados, como os personagens do texto.
b) Angola e Moçambique tiveram trajetórias parecidas depois da independência de Portugal, conquistada em 1975, após lutas de libertação ligadas à Revolução dos Cravos (1974) em Portugal. Dois elementos comuns:
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Governos de orientação marxista-leninista: o MPLA em Angola e a FRELIMO em Moçambique assumiram o poder, adotaram partido único e economia planificada, e se alinharam à URSS e a Cuba.
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Guerras civis prolongadas, com interferência da Guerra Fria e da África do Sul: em Angola, o MPLA enfrentou a UNITA (e a FNLA), apoiadas pelos EUA e pela África do Sul; em Moçambique, a FRELIMO enfrentou a RENAMO. Os conflitos duraram décadas (Angola até 2002, Moçambique até 1992), com milhões de mortos, deslocados e destruição econômica, minas terrestres e dependência de ajuda externa.
Elementos comuns: governos socialistas de partido único (MPLA e FRELIMO) e guerras civis alimentadas pela Guerra Fria e pela África do Sul (UNITA e RENAMO).
Assuntos: guerras civis na áfrica lusófona, refugiados, independência de angola e moçambique.
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