Questão 6 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2015

1º dia · Português

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão as mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p.51.)

a) Na primeira estrofe, o eu lírico afirma categoricamente que “o coração está seco”. Que imagem, nessa primeira estrofe, explica o fato de o coração estar seco? Justifique sua resposta.

b) O último verso (“A vida apenas, sem mistificação”) fornece para o leitor o sentido fundamental do poema. Levando-se em conta o conjunto do poema, que sentido é sugerido pela palavra “mistificação”?

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Resolução comentada

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a) A imagem é a do verso "E os olhos não choram". O choro é a manifestação física da emoção, da dor e do afeto. Quando os olhos já não choram, a sensibilidade se esgotou, e o coração fica "seco" como os olhos sem lágrimas. A secura é, portanto, a metáfora da ausência de sentimento.

A causa vem no verso anterior: "o amor resultou inútil". O eu lírico deixou de dizer "meu Deus" e "meu amor", ou seja, perdeu a crença religiosa e a crença no amor. Sem essas expectativas, não há mais emoção a extravasar. Também reforça a ideia o verso "as mãos tecem apenas o rude trabalho": só resta o gesto mecânico, sem afeto.

Resposta: a imagem dos olhos que não choram, que indica o esgotamento da emoção após o amor ter se mostrado inútil.

b) "Mistificação" é o engano, a ilusão, a idealização que embeleza ou disfarça a realidade. No poema, são mistificações aquilo a que o sujeito renunciou: a fé em Deus ("meu Deus"), o amor como salvação ("meu amor"), a esperança nos amigos e o consolo diante da velhice e da morte.

O "tempo de absoluta depuração" é a purificação que elimina essas ilusões. Restam a lucidez ("és todo certeza") e a aceitação da vida como ela é, com guerras, fomes e discussões, que "provam apenas que a vida prossegue". Por isso morrer não adianta, como preferiam "os delicados": a vida é "uma ordem", um dever a ser encarado. Sem ilusões, o mundo "não pesa mais que a mão de uma criança".

Resposta: "mistificação" sugere as ilusões, crenças e consolos (Deus, amor, esperança) que mascaram a realidade; o poema defende encarar a vida de modo lúcido e despojado, sem fantasias.

Assuntos: interpretação de poema, carlos drummond de andrade, figuras de linguagem.

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