Questão 5 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2015
Leia os excertos a seguir.
Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia.
(Graciliano Ramos, Vidas secas. 118a ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 25.)
Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.
(Graciliano Ramos, Vidas secas. 118a ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 35.)
a) Nos excertos citados, a seca e a falta de educação formal afetam a existência das personagens. Levando em conta o caráter crítico e político do romance, relacione o problema da seca com a questão da escolarização no que diz respeito à personagem Fabiano.
b) “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.” Descreva uma passagem do romance em que, por não saber ler e escrever, Fabiano é prejudicado e não consegue se defender.
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Resolução comentada
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a) Em Vidas secas, Graciliano Ramos mostra que a seca não é apenas um fenômeno climático: ela se soma a uma estrutura social e política que mantém o sertanejo pobre, dependente e sem acesso a direitos. Fabiano vive na incerteza ("Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia"), sem esperança concreta de mudança. Ao mesmo tempo, a falta de escola o deixa sem instrumentos para compreender o mundo e se defender ("só sabia lidar com bichos").
As duas carências se reforçam. A seca o obriga a migrar e a viver na miséria, o que impede o acesso à instrução. Sem instrução, ele não entende as regras que o exploram, como contas, juros e autoridade, e fica à mercê do patrão, do soldado e do dono da terra. O romance critica, assim, o abandono do Estado: a seca castiga, mas a ausência de educação e de políticas públicas perpetua a opressão. Resposta: a seca e a falta de escola se reforçam, e ambas decorrem do abandono social e político, mantendo Fabiano pobre, dominado e incapaz de se defender.
b) Um exemplo está no capítulo "Contas". Fabiano recebia do patrão a quarta parte dos bezerros e, na hora de acertar as contas, achava que o pagamento era menor do que o devido. Como não sabia ler nem calcular, não conseguia conferir os cálculos nem contestar os juros. O patrão dizia que os juros estavam nas contas, e Fabiano, desconfiado mas incapaz de provar, aceitava o prejuízo, calava-se e saía com a sensação de ter sido enganado. Ele ainda dizia que o patrão "tinha razão", por medo de ser despedido.
Outra passagem possível é a da prisão, no capítulo "Cadeia". Fabiano é preso e espancado pelo soldado amarelo sem saber explicar o motivo, e não consegue argumentar nem se defender perante a autoridade. Resposta: no capítulo "Contas", Fabiano é enganado pelo patrão no acerto da paga dos bezerros e, por não saber ler nem calcular, não consegue contestar o prejuízo.
Assuntos: vidas secas, graciliano ramos, literatura brasileira.
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