Questão 8 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2011

1º dia · Português

Leia os seguintes trechos de O cortiço e Vidas secas:

O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. (...). Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulhavam os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (Aluísio Azevedo, O cortiço. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguillar, 2005, p. 462.)

Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera. (...)

  • Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.
    Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.
    Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:
  • Você é um bicho, Fabiano.
    Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades.
    Chegara naquela situação medonha – e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha.
  • Um bicho, Fabiano. (...)
    Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. (Graciliano Ramos, Vidas secas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p.18-19.)

a) Ambos os trechos são narrados em terceira pessoa. Apesar disso, há uma diferença de pontos de vista na aproximação das personagens com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa?

b) Explique como essa diferença se associa à visão de mundo expressa em cada romance.

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a) No trecho de O cortiço, o narrador observa de fora e de cima: é ele quem compara a coletividade dos moradores a plantas rasteiras que mergulham os pés na lama, e o "prazer animal de existir" é uma avaliação do narrador. As personagens não se percebem assim; elas agem por instinto, sem consciência dessa condição. Em Vidas secas, a terceira pessoa é a do discurso indireto livre: o narrador incorpora o ponto de vista de Fabiano. É o próprio vaqueiro que se vê como "bicho", que "criara raízes" e estava "plantado", e ele encara isso com orgulho, como sinal de capacidade de resistir. Portanto, em Azevedo a animalização e a vegetalização vêm de um olhar externo que "rebaixa" as personagens; em Graciliano, vêm da autoimagem da personagem, que se define assim.

Resposta: em O cortiço a comparação é imposta pelo narrador, que observa de fora; em Vidas secas ela nasce da consciência da personagem, expressa por discurso indireto livre.

b) Em O cortiço, romance naturalista, a visão de mundo é determinista: o homem é produto do meio, da raça e dos instintos, e por isso o narrador descreve o cortiço como organismo biológico, em que a massa de moradores vive sob impulsos naturais (sexualidade, gula, fermentação). A animalização é uma explicação científica, distanciada, do comportamento humano.

Em Vidas secas, a animalização tem caráter social e crítico. Fabiano se sente bicho porque vive em terra alheia, submetido ao patrão e aos brancos, sem direitos e sem acesso à linguagem e à instrução. Ele transforma essa condição desumana em orgulho de sobrevivente. A obra, do Modernismo de 1930 (regionalismo social), denuncia a desigualdade e a miséria que desumanizam o sertanejo, em vez de apenas atribuí-las à natureza.

Resposta: em Azevedo, a diferença expressa o determinismo naturalista, que explica o homem pela biologia e pelo meio; em Graciliano, expressa a crítica social à exploração que reduz o sertanejo à condição de bicho.

Assuntos: O cortiço, Vidas secas, ponto de vista e discurso indireto livre.

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