Questão 7 (1º dia) da 2ª fase da UNICAMP 2011
De manhã, escureço
De dia, tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo
A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
Outros que contem
Passo por passo
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Tudo onde há espaço.
-- Meu tempo é quando.
Nova York, 1950
(Vinicius de Moraes, Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p.272.)
a) A poesia é um lugar privilegiado para constatarmos que a língua é muito mais produtiva do que preveem as normas gramaticais. Isso é particularmente visível no modo como o poema explora os marcadores temporais e espaciais. Comente dois exemplos presentes no poema que confirmem essa afirmação.
b) As duas últimas estrofes apresentam uma oposição entre o eu lírico e os outros. Explique o sentido dessa oposição.
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Resolução comentada
Resolução comentada
a) A gramática trata "manhã", "dia", "tarde", "noite" como substantivos de tempo, e "oeste", "sul", "este", "norte" como pontos cardeais. O poema faz essas palavras funcionarem como verbos ou como outras classes, e mistura tempo e espaço. Dois exemplos:
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Na primeira estrofe, "escureço", "tardo", "anoiteço" e "ardo" são verbos criados ou usados de modo novo a partir de marcadores temporais. "Anoiteço" deriva de "noite" (verbo normalmente impessoal, aqui com sujeito pessoal). "Tardo" tem o sentido de demorar, mas também sugere "tarde". O eu lírico vive o ciclo do dia em si mesmo: escurece de manhã, tarda de dia, anoitece de tarde e arde de noite. Isso inverte a lógica esperada, pois claridade, ardor e escuridão não combinam com as horas em que aparecem.
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Nos versos "A oeste a morte / Do sul cativo / O este é meu norte", os pontos cardeais ganham valor simbólico. O oeste, onde o sol se põe, representa a morte. "Cativo" liga o sul à prisão. "Este" (leste) vira "norte" no sentido figurado de rumo ou direção, e ainda joga com o pronome "este". Outro caso é "Meu tempo é quando": o advérbio "quando" é usado como substantivo. "Tudo onde há espaço" também usa o advérbio de lugar "onde" como medida do tempo.
Exemplos aceitos: "anoiteço/tardo/escureço" (substantivos e advérbios de tempo transformados em verbos pessoais) e "O este é meu norte" ou "Meu tempo é quando" (pontos cardeais e advérbios usados com novo valor, misturando tempo e espaço).
b) Os "outros" são os que contam o tempo de modo linear, "passo por passo", em sequência cronológica: ontem, hoje, amanhã, com marcas objetivas de calendário e relógio. Essa é a visão convencional do tempo e da vida.
O eu lírico rompe com essa ordem: "Eu morro ontem / Nasço amanhã". Ele inverte a sucessão (morte antes, nascimento depois) e se coloca em todos os lugares do tempo e do espaço ("tudo onde há espaço"). Seu tempo não é medido pelo calendário, é o "quando" subjetivo, indefinido, que pode ser qualquer momento. A oposição, portanto, é entre o tempo cronológico, objetivo e linear dos outros e o tempo subjetivo, circular e livre do poeta, que vive a existência como experiência íntima e sem limites.
Os outros medem o tempo de forma linear e sequencial; o eu lírico recusa isso e vive um tempo subjetivo, sem ordem, em que morre ontem e nasce amanhã.
Assuntos: análise de poema, vinicius de moraes, classes gramaticais e expressividade.
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