PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 79 da UFPR 2026

1ª fase · Sociologia: Racismo estrutural e desigualdade racial

“O comandante da Rota, tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, afirmou que a atuação da polícia na região nobre e na periferia de São Paulo precisa ser diferente tanto na abordagem como na maneira de falar com os moradores: são pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia] da mesma forma que ele for abordar uma pessoa aqui nos Jardins [região “nobre” de São Paulo], ele vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado […] se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma forma, com a mesma linguagem que uma pessoa da periferia fala aqui nos Jardins, ele pode estar sendo grosseiro com uma pessoa dos Jardins que está ali, andando.”

Bento, C. Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. p. 47.

Considerando a fala e a relação existente entre a abordagem policial e a personalidade autoritária, assinale a alternativa correta.

  1. A
    Para Bento, a declaração do comandante revela uma postura pragmática e técnica da polícia, que adapta sua atuação às particularidades culturais de cada região, sem intenção discriminatória, e visando eficiência operacional.
  2. B
    A fala do comandante da Rota explicita o pacto da branquitude ao naturalizar uma hierarquia racial implícita: a polícia age como braço armado desse pacto, adaptando sua violência de acordo com a racialização dos territórios.
  3. C
    Para Bento, a declaração do comandante revela uma postura pragmática e técnica da polícia, que age com violência nas periferias por falta de treinamento.
  4. D
    Ao analisar a fala, Cida Bento rejeita a ideia de que o neoliberalismo tenha transformado as expressões do racismo, argumentando que a violência racial continua explícita e desvinculada de discursos de eficiência ou mérito.
  5. E
    A diferença nas abordagens policiais comprova que a periferia exige linguagem mais dura, pois lá a criminalidade é maior; já nos Jardins, a delicadeza é possível porque a lei é respeitada – uma análise realista que Bento critica por negar o viés racial.
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Resolução comentada

O trecho vem do livro O Pacto da Branquitude, de Cida Bento. A autora chama de pacto da branquitude o acordo, em geral tácito, que mantém privilégios de pessoas brancas e naturaliza desigualdades raciais em instituições. A questão liga isso à ideia de personalidade autoritária, que é a tendência a tratar grupos de modo hierarquizado, com deferência a quem está "em cima" e dureza com quem está "embaixo".

Na fala do comandante, a abordagem muda conforme o território. Nos Jardins, região nobre e majoritariamente branca, exige-se cuidado para não ser "grosseiro". Na periferia, onde vive a população negra e pobre, a linguagem e a força são outras. Ele apresenta isso como algo normal e técnico, sem perceber (ou sem admitir) a hierarquia que sustenta a diferença.

Por isso:

  1. As alternativas A e C aceitam a justificativa de "pragmatismo" ou "falta de treinamento", o que Bento não faz: para ela, a diferença de tratamento é sintoma do racismo estrutural.
  2. A alternativa D afirma que a violência racial é explícita e desvinculada de discursos de eficiência. Isso é o oposto do que o trecho mostra, pois o comandante justifica a diferença justamente com um discurso de eficiência.
  3. A alternativa E adota o argumento do comandante como "realista", e depois diz que Bento o critica. Ela se contradiz ao tratar a periferia como mais criminosa por natureza, que é justamente o estereótipo racializado.
  4. A alternativa B reconhece que a fala naturaliza uma hierarquia, que a polícia atua como braço do pacto e que a violência varia conforme a racialização do território.

Alternativa B.

Pegadinha: As alternativas A e C usam o mesmo início, "postura pragmática e técnica", que soa plausível por reproduzir o argumento do próprio comandante, mas negam o viés racial que Bento aponta.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • Aaceita a justificativa de pragmatismo e eficiência sem discriminação, o que Bento questiona ao apontar a naturalização da hierarquia racial.
  • Cexplica a violência nas periferias por falta de treinamento, ignorando o componente racial e estrutural.
  • Ddiz que o racismo é explícito e desvinculado de discursos de eficiência, mas a fala do comandante justifica a diferença exatamente por eficiência.
  • Eendossa o estereótipo de que a periferia é mais criminosa e se contradiz ao atribuir a Bento uma crítica a essa visão que ela mesma aceitaria.

Assunto: Racismo estrutural e desigualdade racial.

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Fonte: UFPR 2026 · 1ª fase. Prova oficial ↗