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Questão 50 da UFPR 2026

1ª fase · História: Povos indígenas: colonização, resistência e direitos

Considere os dois excertos a seguir. O primeiro foi retirado da obra “O estado do Direito entre os Autochtones do Brazil”, do intelectual Carl Friedrich Philipp von Martius (1794–1868), publicada em 1907; e o segundo, escrito pelo arqueólogo Eduardo Goés Neves.

O passado remoto da humanidade americana se apresenta para nós como um abismo insondável. Nenhum raio de uma tradição, nenhum monumento de força intelectual anterior esclarece essa escuridão profunda, nenhum som de uma humanidade elevada, nenhum eco [...] escapa deste túmulo para chegar aos nossos ouvidos atentos. Milênios sem resultado passaram por esta humanidade e o único testemunho da sua alta antiguidade é exatamente esta completa dissolução [...]. Nem ao menos o singelo e modesto musgo que como um símbolo da melancolia cobre as ruínas das grandezas antigas romanas e germânicas se estendeu sobre os restos daquela antiguidade sul-americana [...].

Levtizion, N.; Hopkins, J. Corpus of Early Arabic Sources for West African History. Princeton: Markus Wiener, 2011, p. 261-271. Adaptado.

Os poucos relatos disponíveis sobre a Amazônia, produzidos por espanhóis e portugueses nos séculos XVI e XVII [...], falam de grandes assentamentos, com milhares de pessoas, localizados ao largo do Amazonas e de seus principais afluentes. [...] Praticamente em qualquer área da Amazônia onde há pesquisas, a arqueologia vem encontrando evidências de ocupações humanas no passado, mesmo em locais hoje cobertos por floresta aparentemente virgem. Atualmente sabemos que a Amazônia é habitada há pelo menos 12 mil anos, há tanto tempo quanto em outras partes das Américas, por diferentes povos, com distintas formas de organização social e política, desde bandos de caçadores-coletores até sociedades sedentárias hierarquizadas [...].

Neves, E. G. Sob os tempos do Equinócio: oito mil anos de História na Amazônia Central. São Paulo: Edusp/UBU, 2022, p. 183.

Os textos representam visões divergentes sobre o passado dos indígenas da Amazônia. Com base nessas informações contrastantes e nos conhecimentos sobre sociedades indígenas no contexto da América Portuguesa, assinale a alternativa que identifica corretamente as perspectivas históricas sobre os povos originários.

  1. A
    Os projetos de nação bem como os modelos de identidade que estavam vigentes durante o período imperial e boa parte do período republicano anularam as conquistas e a agência histórica dos povos originários.
  2. B
    Os relatos mais antigos, produzidos no início do período colonial, demonstram o desconhecimento dos portugueses e espanhóis, que atribuíram aos povos amazônicos características exageradas.
  3. C
    A arqueologia contemporânea dialoga com a historiografia do século XIX ao corroborar a antiguidade indígena na Amazônia e ao negar a existência de sociedades complexas.
  4. D
    Historiadores como von Martius acreditavam que romanos e germânicos poderiam ter colonizado a Amazônia na Antiguidade, fato esquecido pelos indígenas.
  5. E
    Tanto a historiografia brasileira do século XIX quanto a arqueologia concordam em relação à grandeza do passado amazônico, mas divergem em relação à forma de pensar as estruturas políticas das civilizações originárias.
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Resolução comentada

Os dois textos divergem sobre o passado indígena. Martius, no século XIX, vê a América como um "abismo insondável": sem tradição, sem monumentos, sem "som de uma humanidade elevada". Para ele, os povos originários não deixaram história relevante. Essa visão se encaixa nos projetos de nação do Império, que construíram a identidade nacional sem reconhecer os indígenas como agentes históricos.

Neves, ao contrário, mostra o que a arqueologia encontrou:

  1. a Amazônia é habitada há pelo menos 12 mil anos;
  2. havia povos muito diversos, de bandos de caçadores-coletores a sociedades sedentárias hierarquizadas;
  3. os relatos dos séculos XVI e XVII, que falam de assentamentos com milhares de pessoas, são confirmados pelas evidências em áreas hoje cobertas por floresta.

A alternativa que une as duas perspectivas é a que reconhece que a historiografia imperial e republicana, herdeira de visões como a de Martius, apagou a agência histórica indígena. Isso explica por que a arqueologia contemporânea precisou revisar esse quadro.

As demais erram ao distorcer um dos textos: tratam os relatos antigos como exagero, dizem que a arqueologia nega sociedades complexas, atribuem a Martius uma ideia de colonização romana ou apontam concordância sobre a grandeza do passado.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BNeves usa os relatos antigos como indício confiável, confirmado pela arqueologia, e não como exagero por desconhecimento.
  • CA arqueologia não nega sociedades complexas; ela as afirma, e o século XIX (Martius) negava a grandeza indígena.
  • DMartius só compara o musgo sobre ruínas romanas e germânicas com a ausência de vestígios na América; não fala em colonização.
  • EMartius não reconhece grandeza alguma no passado amazônico; a divergência é sobre a própria existência dessa grandeza.

Assuntos: Povos indígenas: colonização, resistência e direitos, Historiografia, fontes e tempo histórico.

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Fonte: UFPR 2026 · 1ª fase. Prova oficial ↗