PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 13 (2º exame) da UERJ 2012
Texto-base das questões 10 a 15 · 2º Exame de Qualificação
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento – e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven – e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
RUBEM BRAGA
PROENÇA FILHO, Domício (org.). Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro: Record, 1997.
Toda a indagação do cronista acerca da palavra se baseia na diferença entre a importância que ela pode ter, por um lado, para quem a escreve e, por outro, para quem a lê.
O par de vocábulos que melhor exemplifica essa diferença no texto é:
- Aesqueci (\ell. 9) – feri (\ell. 1)
- Bofício (\ell. 3) – consolo (\ell. 4)
- Cespontânea (\ell. 8) – secreta (\ell. 16)
- Dreconciliar (\ell. 5) – despertar (\ell. 18)
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Resolução comentada
A questão pede um par de palavras que mostre o contraste entre o peso da palavra para quem a diz e o peso para quem a ouve.
No texto, o cronista diz que fala e escreve muito, sem medir o alcance do que diz. Ele nota dois efeitos sobre os outros: pode ferir alguém sem querer, ou fazer bem a alguém sem saber.
- Para quem escreve ou fala, a palavra é algo espontâneo e distraído. Ele diz "com naturalidade" e "depois esqueci" (linha 9). O verbo esqueci marca que, para o autor, a frase passou sem importância.
- Para quem ouve, a mesma palavra pode ter efeito forte e duradouro. O texto fala em ajudar alguém a se reconciliar, a sonhar, e também em ferir (linha 1). O verbo feri mostra o impacto da palavra sobre o outro, impacto que o autor nem percebeu.
Assim, esqueci representa a pouca importância para quem diz, e feri representa o grande efeito sobre quem recebe.
Os outros pares não opõem emissor e receptor. Ofício e consolo pertencem os dois ao ponto de vista do autor. Espontânea e secreta descrevem a frase e o canário, sem contraste de perspectivas. Reconciliar e despertar indicam efeitos sobre o ouvinte, sem a perspectiva de quem fala.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- B"Ofício" e "consolo" são ambos do ponto de vista do autor, sem opor quem escreve a quem lê.
- C"Espontânea" e "secreta" qualificam a frase e a ligação com o canário, sem contrastar emissor e receptor.
- D"Reconciliar" e "despertar" tratam ambos dos efeitos sobre o ouvinte, sem a perspectiva de quem diz.
Assunto: Sentido das palavras: sinonímia, antonímia e campo semântico.
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Fonte: UERJ 2012 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗