PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 14 (2º exame) da UERJ 2012
Texto-base das questões 10 a 15 · 2º Exame de Qualificação
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento – e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven – e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
RUBEM BRAGA
PROENÇA FILHO, Domício (org.). Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro: Record, 1997.
Às vezes, também (ℓ. 4)
Ao estabelecer coesão entre os dois primeiros parágrafos, a palavra “também”, nesse contexto, expressa determinado sentido.
Considerando esse sentido, “também” poderia ser substituído pela seguinte expressão:
- Adesse modo
- Bpor outro lado
- Cpor conseguinte
- Dem consequência
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Resolução comentada
O primeiro parágrafo mostra o lado negativo de falar e escrever muito: o autor pode ter ferido alguém, sentindo hostilidade e mágoa em pessoas que acaba de conhecer. O segundo parágrafo começa com "Às vezes, também a gente tem o consolo..." e traz o lado positivo, o consolo de ter ajudado alguém.
Assim, "também" não tem o sentido de simples adição de ideias semelhantes. Ele liga duas ideias que se opõem: o dano que a palavra pode causar e o bem que ela pode fazer. Isso dá ao conectivo um valor de contraste, de contraponto.
Testando as alternativas:
- "Desse modo" indica maneira ou conclusão, mas o segundo parágrafo não decorre do primeiro.
- "Por outro lado" introduz um aspecto contrário ou complementar, que é exatamente a relação entre os parágrafos.
- "Por conseguinte" e "em consequência" indicam conclusão ou consequência. O consolo não é efeito da mágoa causada.
Portanto, a expressão que mantém o sentido é "por outro lado".
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- A"Desse modo" indica modo ou conclusão, e o segundo parágrafo não resulta do primeiro.
- C"Por conseguinte" expressa conclusão, mas o consolo não é consequência da mágoa causada.
- D"Em consequência" marca relação de causa e efeito, que não existe entre os parágrafos.
Assunto: Conectivos e relações lógico-semânticas.
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Fonte: UERJ 2012 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗