PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 12 (2º exame) da UERJ 2012
Texto-base das questões 10 a 15 · 2º Exame de Qualificação
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito – como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento – e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven – e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído – talvez palavras de algum poeta antigo – foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
RUBEM BRAGA
PROENÇA FILHO, Domício (org.). Pequena antologia do Braga. Rio de Janeiro: Record, 1997.
O episódio do canário traz uma contribuição importante para o sentido do texto, ao estabelecer uma analogia entre a palavra do escritor e a música assobiada pela amiga.
A inserção desse episódio no texto reforça a seguinte ideia:
- Aa intolerância leva o artista ao isolamento
- Ba arte atinge as pessoas de modo inesperado
- Ca solidão é remediada com soluções artísticas
- Da profissão envolve o artista em conflitos desnecessários
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Resolução comentada
A analogia é o ponto central: o escritor diz que uma palavra dita sem querer fez bem a alguém, e nunca saberá qual foi. O episódio do canário reproduz essa situação.
- Foram dadas várias receitas planejadas para o canário cantar: falar com ele, cantarolar, tocar piano, pôr outro canário, ligar o rádio. Nenhuma funcionou.
- Quando a amiga, sozinha e distraída, assobiou uma frase de Beethoven sem nenhuma intenção, o canário cantou.
- Na crônica, o efeito é o mesmo: a frase "espontânea e distraída" do autor despertou "melodias esquecidas" na alma de alguém.
Portanto, o que une os dois casos é o efeito inesperado: a arte (a música, a palavra) alcança as pessoas, ou o pássaro, de modo imprevisto, fora do que se planejou. A ideia de espontaneidade e acaso aparece em "por acaso", "distraída" e "sem querer".
Conclusão: o episódio reforça que a arte atinge as pessoas de modo inesperado.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AO texto não trata de intolerância nem de isolamento do artista; a hostilidade citada é só um comentário secundário no início.
- CA solidão não é o tema; o canário cantou por acaso, não como solução artística planejada (as receitas falharam).
- DO conflito citado no início ("imprudente ofício") não é reforçado pelo canário, que ilustra o efeito positivo e inesperado da palavra.
Assunto: Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).
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Fonte: UERJ 2012 · 2º Exame de Qualificação. Prova oficial ↗