PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 5 (Português) da 2ª fase do ITA 2027
Leia os textos I e II abaixo para responder às questões 4 a 6. · 2ª fase · Português
Texto I:
Excerto do Canto III de Os Lusíadas
Qual contra a linda moça Polycena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.
Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
Fonte: CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Porto editora, 2009, p.161-162.
Texto II:
A tirania é um fenômeno que, acima de tudo, desvanece a linha entre a justiça e o arbítrio venal. Quando isso se dá, abrem-se as portas para o caos, fragilizando toda a estrutura de um governo. É impressionante como o gênero dramático se presta (talvez mais que os demais) a retratar perfeitamente as atrocidades advindas de tal fenômeno. [...]
Tiestes, tragédia do escritor e filósofo Sêneca [...] é mais um exemplar desse tema.
O mito da dinastia dos tantálidas é relativamente bem conhecido e a ele está intimamente ligado o drama em Tiestes. O mais ilustre e remoto patriarca dessa família, Tântalo, é famoso por sofrer no tártaro um suplício horrível, consequência de seu ato cruel e prepotente de querer testar a onisciência dos deuses mitológicos matando seu filho Pélope e servindo-o em banquete a estes. Por seu ato, é condenado a padecer de fome e sede inauditas nas profundezas, tendo a seu alcance árvore com frutos e um lago que, não obstante, dele se apartam quando busca se saciar. [...]
É na figura de seus dois netos que assentará tal herança. Atreu é famoso por sua (suposta) paternidade: Agamenon e Menelau, heróis na guerra de Troia, são seus filhos. Tiestes é seu irmão. Na peça, ele e seus três filhos encontram-se exilados, fruto de sua ambição em usurpar o trono de Atreu, além de lhe ter seduzido a esposa. A fúria selvagem do monarca é insaciável: à guisa de vingança, convida o irmão a regressar, simulando reconciliação, mas secretamente assassina os sobrinhos, renovando o crime do avô no banquete atroz que promove a Tiestes, espetáculo tão terrível que faz o próprio sol retomar sua marcha, deixando o mundo em trevas.
Fonte: SOUSA, Clayton de. O poder do arbítrio em “Tiestes”, de Sêneca. Gazeta do Povo, Curitiba, 25 out. 2019. Disponível em https://www.gazetadopovo.com.br/cultura/poder-arbitrio-tiestes-seneca/
Com base na leitura do texto I, nas convenções do gênero épico e nos ideais do Classicismo, assinale a alternativa CORRETA.
- AA representação do assassínio de Inês de Castro constitui um registro pautado pela fidedignidade da historiografia dinástica, no qual a sobriedade da análise dos fatos políticos se sobrepõe às expansões líricas do narrador épico.
- BA mobilização de elementos do cosmos, como o Sol, para reagir à morte da protagonista, reflete a transcendência do drama humano na visão classicista, em que a violação da ética individual reverbera no fenômeno sideral.
- CA caracterização de Inês como “paciente e mansa ovelha” sugere que a vítima reconhece a legitimidade de sua execução, transformando o crime em um ato de conformidade para o bem de todos.
- DO tom de lamento e a comoção da natureza diante da “boca fria” de Inês são elementos considerados atípicos no gênero épico e servem para suavizar a responsabilidade dos “brutos matadores”.
- EA imagem dos vales que repetem o nome de Pedro indica que o crime, embora brutal, deve ser entendido como um infortúnio doméstico, desprovido de implicações para a construção da identidade e do destino da nação lusitana.
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Resolução comentada
O Canto III de Os Lusíadas conta o episódio de Inês de Castro. Nele, Camões segue o modelo épico clássico (Homero, Virgílio) e retoma mitos greco-latinos para elevar o fato. O texto II mostra que o Sol recua diante do banquete de Tiestes, e o texto I faz a mesma comparação: "Bem puderas, ó Sol, [...] teus raios apartar". Ou seja, o cosmos reage ao crime.
Agora, alternativa por alternativa:
- A está errada. O trecho é cheio de lirismo (símiles, apóstrofes, patético), e não de sobriedade historiográfica. Além disso, Camões mistura lenda e história.
- B está certa. O apelo ao Sol e aos vales mostra que o crime contra a inocente é tão grave que afeta a ordem do universo. Isso é característico do Classicismo, que dialoga com a tragédia antiga, como a de Sêneca, e liga a ética humana à ordem cósmica.
- C está errada. A comparação com a ovelha e com Polixena destaca a inocência e a mansidão da vítima, e não a legitimidade da execução. O narrador chama os algozes de "brutos" e fala em "castigo".
- D está errada. A comoção e o apóstrofe são recursos aceitos na épica, e aqui eles reforçam a culpa dos assassinos.
- E está errada. A morte de Inês tem ligação direta com a dinastia e com o destino de Portugal. Por isso aparece no poema nacional.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AIgnora o forte lirismo e a mistura de mito e história; o trecho não é sóbrio nem puramente historiográfico.
- CA imagem da ovelha ressalta inocência e mansidão da vítima, não a legitimidade da execução; o narrador condena os "brutos".
- DLamento e comoção da natureza são recursos compatíveis com a épica e reforçam, não suavizam, a culpa dos assassinos.
- EReduz o episódio a drama doméstico, ignorando sua relação com a dinastia e o destino de Portugal.
Assunto: Classicismo: Camões.
Resultado conferido com as resoluções dos cursinhos Farias Brito e Poliedro.
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Fonte: ITA 2ª fase 2027 · Português. Prova oficial ↗