PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 12 (Português) da 2ª fase do ITA 2027
Leia os textos I e II a seguir para responder às questões 10 a 12. · 2ª fase · Português
Texto I: excerto do conto A Igreja do Diabo
I De uma ideia mirífica
Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja — concluiu ele. — Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja, uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:
— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.
II Entre Deus e o Diabo
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? — perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto — respondeu o Diabo rindo —, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? — perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la — advertiu o Senhor.
— Tendes razão — acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai. [...]
Fonte: ASSIS, Machado de. Todos os romances e contos consagrados. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. v. 3, p. 369-370.
Texto II
Por curiosas que sejam as cabriolas1 do pensamento e estranhas as fantasias do desejo, não há outro modo de sobreviver no cotidiano senão agarrando-se firme às instituições; estas, e só estas, asseguram ao frágil indivíduo o pleno direito à vida material e, daí, ao doce lazer que lhe permitirá até mesmo balançar-se naquelas cabriolas e fantasias. Vejo nos contos maduros de Machado, escritos depois de franqueada a casa dos quarenta anos, o risco em arabesco de “teorias”, bizarras e paradoxais teorias, que, afinal, revelam o sentido das relações sociais mais comuns e atingem alguma coisa como a estrutura profunda das instituições.
1 Cabriola: Salto leve, pinote, pirueta. / Mudança repentina de opinião.
Fonte: BOSI, Alfredo. Machado de Assis: O enigma do olhar. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 84-85.
Assinale a alternativa que apresenta a REESCRITA do trecho abaixo transcrito, considerando o interlocutor como terceira pessoa do singular, mantendo a correção gramatical e o sentido original.
“— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...”.
- A— Senhor, a explicação é fácil; mas permita que o diga: recolhe primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, mande que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- B— Senhor, a explicação é fácil; mas permita que lhe diga: recolha primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, mande que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- C— Senhor, a explicação é fácil; mas permite que vos digo: recolhe primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, manda que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- D— Senhor, a explicação é fácil; mas permite que o diga: recolhe primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, manda que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebem com os mais divinos coros...
- E— Senhor, a explicação é fácil; mas permite que lhe diga: recolha primeiro esse bom velho; dê-lhe o melhor lugar, mande que as mais afinadas cítaras e alaúdes lhe recebam com os mais divinos coros...
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Resolução comentada
O trecho original trata Deus por "vós" (2ª pessoa do plural, forma de tratamento reverente): permiti, vos diga, recolhei, dai-lhe, mandai. Para passar o interlocutor à 3ª pessoa do singular ("o Senhor" = "você/ele"), é preciso converter todos os verbos e pronomes.
-
Imperativo: na 3ª pessoa do singular, o imperativo usa a forma do subjuntivo: permitir → permita; recolher → recolha; dar → dê; mandar → mande. Formas como permite, recolhe, manda são da 2ª pessoa do singular (tu), logo não servem.
-
Pronome "vos diga": o "vos" é complemento indireto (dizer algo a alguém). Na 3ª pessoa, vira lhe: "permita que lhe diga". O pronome o seria objeto direto, inadequado aqui.
-
"dai-lhe" → dê-lhe, já correto.
-
"o recebam": o o retoma o velho (objeto direto de receber) e não se refere ao interlocutor; deve permanecer o recebam. Trocar por lhe recebam é erro de regência, pois receber é transitivo direto.
A sequência correta é: permita que lhe diga: recolha... dê-lhe... mande que... o recebam...
Isso corresponde à alternativa B.
Alternativa B.
Pegadinha: A alternativa E engana porque acerta quase tudo, mas troca "o recebam" por "lhe recebam", confundindo o velho com o interlocutor e o objeto direto com indireto.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Ausa "o diga" (objeto direto) em vez de "lhe diga" e deixa "recolhe" e "mande" misturados com formas de tu.
- Cmantém "vos", usa "permite", "digo" (indicativo) e "manda", todos fora da 3ª pessoa.
- Dusa "permite", "o diga", "recolhe", "manda" e "recebem" (indicativo), vários erros.
- Eusa "permite" (tu) e troca "o recebam" por "lhe recebam", errando a regência de receber.
Assunto: Reescrita de frases, paralelismo e ordem dos termos.
Resultado conferido com as resoluções dos cursinhos Farias Brito e Poliedro.
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Fonte: ITA 2ª fase 2027 · Português. Prova oficial ↗