Correção ITA 2027 · 2ª fase completaAs 45 questões dos quatro dias, com as resoluções e a proposta de redaçãoVer a prova

PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 11 (Português) da 2ª fase do ITA 2027

Português · Literatura: Machado de Assis: contos, crônicas e outras obras

Leia os textos I e II a seguir para responder às questões 10 a 12. · 2ª fase · Português

Texto I: excerto do conto A Igreja do Diabo

I De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.

— Vá, pois, uma igreja — concluiu ele. — Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja, uma tenda de Abraão. E, depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.

Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo:

— Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II Entre Deus e o Diabo

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.

— Que me queres tu? — perguntou este.

— Não venho pelo vosso servo Fausto — respondeu o Diabo rindo —, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

— Explica-te.

— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...

— Sabes o que ele fez? — perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.

— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?

— Vieste dizê-la, não legitimá-la — advertiu o Senhor.

— Tendes razão — acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.

— Vai. [...]

Fonte: ASSIS, Machado de. Todos os romances e contos consagrados. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016. v. 3, p. 369-370.

Texto II

Por curiosas que sejam as cabriolas1 do pensamento e estranhas as fantasias do desejo, não há outro modo de sobreviver no cotidiano senão agarrando-se firme às instituições; estas, e só estas, asseguram ao frágil indivíduo o pleno direito à vida material e, daí, ao doce lazer que lhe permitirá até mesmo balançar-se naquelas cabriolas e fantasias. Vejo nos contos maduros de Machado, escritos depois de franqueada a casa dos quarenta anos, o risco em arabesco de “teorias”, bizarras e paradoxais teorias, que, afinal, revelam o sentido das relações sociais mais comuns e atingem alguma coisa como a estrutura profunda das instituições.

1 Cabriola: Salto leve, pinote, pirueta. / Mudança repentina de opinião.

Fonte: BOSI, Alfredo. Machado de Assis: O enigma do olhar. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 84-85.

A partir do excerto do conto machadiano, é possível INFERIR que

  1. A
    o recurso narrativo do “velho manuscrito beneditino” configura um subterfúgio que confere autoridade histórica ao relato e assegura que o ponto de vista religioso seja aceito pelo leitor como a verdade absoluta dos fatos narrados.
  2. B
    a fundação da nova congregação é impulsionada por uma predileção por lucros extraordinários, visto que o Diabo identifica, na ausência de dízimos, o principal obstáculo para a manutenção de sua influência no mundo.
  3. C
    o desejo do Diabo de institucionalizar o mal, adotando a estrutura e os rituais das religiões tradicionais como estratégia para conferir respeitabilidade e ordem àquilo que era exercido de forma fragmentada, evidencia a ironia machadiana.
  4. D
    as falas dirigidas a Deus denotam um anseio por legitimidade divina, o que demonstra o objetivo do Diabo em restabelecer a harmonia entre as forças celestiais e abismais por meio de uma estrutura eclesiástica única.
  5. E
    a menção à “tenda de Abraão” e a figuras como Maomé e Lutero revela uma proposta ecumênica, que visa extinguir as divisões ideológicas que assolam as sociedades contemporâneas, e justifica a adesão dos espíritos.
O gabarito oficial ainda não saiu: escolha uma alternativa para conferir com a resposta dos cursinhos Farias Brito e Poliedro.
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Resolução comentada

O que a questão pede é uma inferência: o que o texto sugere sem dizer de forma explícita. Vale lembrar que o Texto II (Bosi) lê os contos de Machado como "teorias" bizarras que revelam a lógica das instituições.

No trecho, o Diabo se sente humilhado por seu papel "avulso", "sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual". Ele vive dos "remanescentes divinos" e dos descuidos humanos. Por isso decide copiar o aparato das religiões: escritura, breviário, missa, prédicas, bulas, novenas. A organização institucional é o meio de ganhar ordem e respeitabilidade para o mal e de vencer as outras religiões.

A ironia está em o mal precisar imitar a Igreja para se firmar. Isso mostra que até o Diabo reconhece a instituição como forma de poder, exatamente o que Bosi observa sobre as instituições.

Conferindo as alternativas:

  1. O "velho manuscrito" é um recurso irônico e paródico, não garante verdade absoluta.
  2. O motivo é a humilhação e a desorganização, não a falta de dízimos. Os lucros já eram "contínuos e grandes".
  3. O Diabo quer vencer Deus, não harmonizar as forças.
  4. A "tenda de Abraão" e a menção a Maomé e Lutero indicam uma igreja única que nega tudo, não uma proposta ecumênica.

Só a alternativa que une institucionalização, imitação dos rituais e ironia está de acordo com o texto.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AToma o "velho manuscrito" como garantia de verdade absoluta, mas é recurso irônico, que simula autoridade histórica.
  • BAtribui a fundação à busca de lucros e à falta de dízimos, mas o texto diz que os lucros já eram grandes e o incômodo é a desorganização.
  • DO Diabo quer desafiar e vencer Deus, não restabelecer harmonia; ele não busca aprovação como reconciliação.
  • ELê a "tenda de Abraão" como ecumenismo, mas a igreja única do Diabo se baseia em negar tudo, para destruir as demais religiões.

Assuntos: Machado de Assis: contos, crônicas e outras obras, Inferência e implícitos (pressupostos e subentendidos).

Resultado conferido com as resoluções dos cursinhos Farias Brito e Poliedro.

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