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PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS

Questão 11 (Português e Inglês) da 2ª fase do IME 2027

Português e Inglês · Português · Literatura: Carlos Drummond de Andrade

Texto-base das questões 11 a 20 · Português e Inglês

Texto 2

Eu, etiqueta

Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório, um nome... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nesta vida. Em minha camiseta, a marca de cigarro que não fumo, até hoje não fumei. [...] Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente, [...] meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidência, costume, hábito, premência, indispensabilidade, e fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada. [...] Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer, principalmente). E nisto me comprazo, tiro glória de minha anulação. Não sou — vê lá — anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago para anunciar, para vender em bares festas praias pérgulas piscinas, e bem à vista exibo esta etiqueta global no corpo que desiste de ser veste e sandália de uma essência tão viva, independente, que moda ou suborno algum a compromete. Hoje sou costurado, sou tecido, sou gravado de forma universal, saio da estamparia, não de casa, da vitrine me tiram, recolocam, objeto pulsante, mas objeto que se oferece como signo de outros objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.

ANDRADE, C. D. Eu, etiqueta. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (texto adaptado)

Considerando a escolha vocabular e a perspectiva crítica presente no poema, é possível afirmar que o título “Eu, etiqueta”:

  1. A
    recupera a concepção romântica do “eu” como fortalecimento da autoestima do sujeito por meio do consumo consciente, em diálogo com características típicas do Romantismo.
  2. B
    reproduz a objetividade característica do Realismo ao apresentar o indivíduo como elemento passível de classificação social.
  3. C
    estabelece uma tensão entre a identidade individual e sua transformação em objeto de identificação comercial, aspecto coerente com a crítica social desenvolvida pelo Modernismo.
  4. D
    emprega uma linguagem marcada pela idealização do indivíduo e pela valorização de modelos clássicos.
  5. E
    indica a importância de seguir padrões de comportamento para garantir uma convivência harmoniosa em sociedade.
Escolha uma alternativa para conferir o gabarito.
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Resolução comentada

O poema de Drummond mostra um sujeito cujo corpo foi tomado por marcas comerciais: a calça, o blusão e a camiseta trazem nomes de produtos que ele nem consome. O eu lírico se descreve como "homem-anúncio itinerante", "escravo da matéria anunciada". No final, pede que retifiquem seu nome, porque "já não me convém o título de homem. Meu nome novo é coisa".

O título reúne duas palavras de campos opostos. "Eu" remete à identidade, à subjetividade e à individualidade. "Etiqueta" remete a mercadoria, marca e identificação comercial. Essa justaposição resume o conflito do poema: a identidade individual é anulada e o sujeito vira objeto, "artigo industrial". O tom é irônico e crítico, pois o sujeito finge se orgulhar da "própria anulação".

É uma crítica social à sociedade de consumo e à reificação (coisificação) do ser humano, coerente com o Modernismo, que usa verso livre, linguagem coloquial e olhar crítico sobre a vida moderna.

Conferindo as alternativas: não há exaltação romântica do eu nem consumo "consciente" (A). Não há classificação objetiva, de tom realista (B). Não há idealização nem modelos clássicos (C descarta D). O poema não defende seguir padrões, e sim os critica (E). Só a alternativa que fala em tensão entre identidade e objeto comercial corresponde ao texto.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO poema não exalta o eu nem o consumo consciente; denuncia a perda de identidade pelo consumo, o que contraria o Romantismo.
  • BO tom é irônico e crítico, não uma descrição objetiva e classificatória como a realista; o foco é a coisificação.
  • DNão há idealização do indivíduo nem modelos clássicos; o sujeito é rebaixado a "coisa", com verso livre e linguagem coloquial.
  • EO poema critica a conformidade aos padrões de consumo, não defende seguir padrões para a harmonia social.

Assuntos: Carlos Drummond de Andrade, Gênero lírico: eu lírico e leitura de poema.

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Fonte: IME 2ª fase 2027 · Português e Inglês. Prova oficial ↗