PRÁTICA COM QUESTÕES OFICIAIS
Questão 11 (Português e Inglês) da 2ª fase do IME 2022
Texto-base das questões 06 a 14 · Português e Inglês
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora, Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro, Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta, Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas! Promíscua fúria de ser parte-agente Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrênuos, Da faina transportadora-de-cargas dos navios, Do giro lúbrico e lento dos guindastes, Do tumulto disciplinado das fábricas, E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas Entre maquinismos e afazeres úteis! Grandes cidades paradas nos cafés, Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas Onde se cristalizam e se precipitam Os rumores e os gestos do Útil E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
“Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!” (texto 2, linhas 27 a 32)
Quanto ao segmento do texto 2 apresentado, considere as seguintes afirmações:
I. No segmento em destaque, tomado por sensações vertiginosas, o poeta modernista evidencia um sentimento de fascínio pelas máquinas, assim como o seu desejo de fusão e integração.
II. Em consonância com uma estética romântica tardia, o vocábulo “flora” foi empregado no intuito de postular uma possível reconversão do mundo das máquinas a uma natureza pujante, então vilipendiada.
III. No verso “Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável” (linha 32), a palavra “estupenda” apresenta uma relação de sinonímia com o vocábulo “abundante”.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
- AI, apenas.
- BII, apenas.
- CIII, apenas.
- DI e III, apenas.
- EII e III, apenas.
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Resolução comentada
Vamos avaliar cada afirmação com base no trecho de Álvaro de Campos.
I (correta). O eu lírico deseja "ser completo como uma máquina", "penetrar-me fisicamente de tudo isto", "rasgar-me todo, abrir-me completamente". Isso mostra fascínio pela máquina e vontade de fusão com ela, e o tom febril e exclamativo traduz as sensações vertiginosas, típicas do Futurismo.
II (errada). A "flora" é metáfora que humaniza e naturaliza o universo mecânico, mas ela é "negra, artificial e insaciável". O poeta não propõe voltar a uma natureza pujante e desprezada, nem faz isso em tom romântico. Ele exalta o mundo industrial moderno, e o sentido é o oposto de um retorno ao natural. Além disso, a estética é futurista, e não romântica tardia.
III (errada). "Estupenda" significa admirável, maravilhosa, que causa espanto. "Abundante" significa que existe em grande quantidade. Os dois termos não são sinônimos, pois um indica valoração e o outro, quantidade.
Só a afirmação I está correta.
Alternativa A.
Pegadinha: A alternativa D engana por tratar "estupenda" como quase sinônimo de "abundante", dado o contexto de uma flora exuberante.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BVê na "flora" um retorno à natureza, mas o poeta exalta a máquina, uma flora "artificial".
- C"Estupenda" é admirável, espantosa, e não sinônimo de "abundante".
- DAcerta a I, mas inclui a III, cuja sinonímia é falsa.
- EReúne duas afirmações falsas e deixa de fora a única correta.
Assuntos: Fernando Pessoa e a literatura portuguesa do século XX, Gênero lírico: eu lírico e leitura de poema.
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Fonte: IME 2ª fase 2022 · Português e Inglês. Prova oficial ↗