Questão 10 da FUVEST 2026

Capoeira, Maria Auxiliadora da Silva, técnica mista sobre tela, 69,5 x 75 x 1,5 cm, 1970. Acervo MASP.
carvão, figuras nos muros. Absorta nessa atividade, esquecia muitas vezes de olhar as panelas no fogo, e a comida da família queimava. (...) Sem conhecer perspectiva ou claro-escuro, bem dentro dos princípios dos artistas autodidatas, Auxiliadora foi aprimorando sua arte. No fim dos anos 1960, juntou-se, com outros integrantes da família, como o escultor Vicente de Paula e o pintor João Cândido, ao grupo que girava em torno do músico, teatrólogo e poeta negro Solano Trindade, no Embu das Artes, SP, onde se formara um centro de artesanato, principalmente de cultura e arte de origem africana.”
D'AMBROZIO, Oscar. Maria Auxiliadora. Um cometa das artes. Adaptado.
A trajetória da artista autodidata Maria Auxiliadora da Silva desafia as estruturas convencionais do sistema de artes visuais no Brasil ao articular, em sua obra e atuação, experiências de pertencimento, identidade e resistência. Em crítica publicada no livro “Pensando a Arte”, Mário Schenberg descreve sua produção como marcada pela "vivência autêntica da vida popular", "senso mágico afro-brasileiro" e uma "imaginação construtora de arquiteturas cromáticas e lineares". Considerando a obra “Capoeira”, os comentários de Schenberg, o texto de Oscar D’Ambrozio e os debates contemporâneos sobre arte e decolonialidade, é correto afirmar:
- AA obra de Maria Auxiliadora é classificada como "naïf" ou "primitivista" por apresentar um vocabulário visual simples e espontâneo, característico de artistas sem formação acadêmica, o que justifica sua exclusão dos grandes circuitos institucionais da arte contemporânea.
- BA produção de Maria Auxiliadora deve ser compreendida como uma manifestação isolada, desprovida de intencionalidade crítica ou diálogo com os debates socioculturais e políticos do seu tempo, reforçando o lugar da arte popular como expressão puramente intuitiva.
- CA visibilidade póstuma de Maria Auxiliadora nos museus e exposições de arte brasileira evidencia o reconhecimento institucional imediato e contínuo de artistas racializados e periféricos no país, fruto da tradição inclusiva das artes visuais brasileiras desde o século XX.
- DA categorização da obra de Maria Auxiliadora como “primitivista” ou “ingênua” revela, muitas vezes, uma perspectiva colonizadora que desconsidera a complexidade estética, a intencionalidade política e a potência simbólica de sua produção, ligada a vivências negras, femininas e periféricas que tensionam o cânone eurocentrado da arte.
- EA valorização da obra de Maria Auxiliadora por críticos como Mário Schenberg atesta a neutralidade das categorias da crítica de arte moderna no Brasil, demonstrando que critérios estéticos sempre foram suficientes para reconhecer artistas não brancos e mulheres no campo artístico.
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Resolução comentada
A questão pede a afirmação coerente com o enunciado, que destaca a trajetória da artista como desafio às estruturas do sistema de artes, e com o debate decolonial.
O conceito central é o uso de rótulos como "naïf", "primitivista" ou "ingênuo". Eles foram criados pelo olhar acadêmico europeu para classificar quem não passou pela formação tradicional (perspectiva, claro-escuro). O texto de D'Ambrozio diz que Auxiliadora não conhecia esses recursos, mas o próprio Schenberg fala em "imaginação construtora de arquiteturas cromáticas e lineares". Ou seja, há construção consciente, e não mera espontaneidade.
Na tela Capoeira, isso aparece nos corpos em movimento acrobático, nas estampas detalhadas das roupas, na composição ritmada e nos instrumentos de origem africana (berimbau, atabaque). Trata-se de uma cultura negra e popular representada com intenção simbólica e afirmação de identidade, ligada ao círculo de Solano Trindade.
Por isso, reduzir a obra a "ingênua" ignora sua complexidade estética e política e mede a artista pelo cânone eurocêntrico. É o que o debate decolonial critica.
A alternativa D é a única que reúne esses pontos: crítica ao rótulo, reconhecimento da intencionalidade política e da potência simbólica, e o tensionamento do cânone.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Aadota o rótulo "naïf/primitivista" sem crítica e diz que ele justifica a exclusão dos circuitos institucionais, o oposto do debate decolonial.
- Bnega a intencionalidade crítica e o diálogo sociocultural, contrariando a leitura de Schenberg e a temática afro-brasileira da tela.
- Cafirma reconhecimento imediato e contínuo e tradição inclusiva, mas a visibilidade foi tardia e a exclusão de artistas racializados é justamente o problema.
- Esustenta a neutralidade da crítica e critérios sempre suficientes, ideia que o debate decolonial questiona; a valorização por Schenberg não prova isso.
Assuntos: arte brasileira, arte naïf e decolonialidade, Maria Auxiliadora da Silva.
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