Questão 84 da FUVEST 2025
Leia os trechos das obras Marília de Dirceu e Romanceiro da Inconfidência:
Lira VII (Parte II)
“Meu prezado Glauceste,
Se fazes o conceito
Que, bem que réu, abrigo
A cândida Virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
Da tua mão socorro;
Ah! Vem dar-mo agora,
Agora, sim, que morro!
Não quero que, montado
No Pégaso fogoso,
Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar, raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
E forje o meu tormento:
Com menos, meu Glauceste,
Com menos me contento.”
Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu.
Romance LXVI ou De Outros Maldizentes
“- Que fica, na fortaleza,
daquele poeta Gonzaga?
- Um par de esporas, somente.
Um par de esporas de prata.
(...)
Dizem que tinha um cavalo
que Pégaso se chamava.
Não pisava neste mundo,
mas nos planaltos da Arcádia!”
Cecília Meireles. Romanceiro da Inconfidência.
Considerando o substantivo Pégaso, presente nos dois excertos, é correto afirmar:
- ANo poema de Cecília Meireles, a referência tem por objetivo destacar o animal mítico, enquanto na lira de Gonzaga o substantivo se refere a um animal real.
- BNo poema de Gonzaga, a referência ao animal mitológico serve para aludir às características heroicas de Glauceste, enquanto, no poema de Cecília Meireles, Pégaso alude à criação poética.
- CPor pretender um tom épico, Cecília Meireles usa o animal mitológico para distinguir a condição heroica do poeta, enquanto Gonzaga se refere às suas diferenças com Glauceste.
- DNo poema de Cecília Meireles, a metáfora do cavalo alado indica a evasão da realidade, típica dos poetas árcades, enquanto, no poema de Gonzaga, a referência ao animal serve para aludir às suas próprias características heroicas.
- EA referência ao cavalo alado provoca um efeito de estranhamento no leitor, tendo em vista as características específicas de cada obra poética.
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Resolução comentada
Pégaso é o cavalo alado da mitologia grega, cujo casco fez brotar a fonte das Musas. Por isso, na tradição literária, ele simboliza a inspiração poética. Vale ver como cada texto o emprega.
Na lira de Gonzaga, Dirceu está preso e pede socorro ao amigo Glauceste. Ele diz que não quer que o amigo venha "montado no Pégaso fogoso" com "dura lança" para atravessar o "monstro infame". O monstro é a calúnia. Ou seja, Pégaso aparece como imagem do poder da poesia e de um gesto heroico, cavaleiresco, que Glauceste poderia praticar em sua defesa, e Dirceu o dispensa. Ele se contenta com menos: um socorro simples.
No poema de Cecília Meireles, os maldizentes comentam o que sobrou do poeta Gonzaga: só esporas de prata. Dizem que ele tinha um cavalo chamado Pégaso, que "não pisava neste mundo, mas nos planaltos da Arcádia". Aqui Pégaso representa a criação poética de Gonzaga, um poeta arcádico, voltado a um mundo idealizado e distante da realidade. Além disso, a fala é irônica, pois vem de maldizentes.
Logo, a leitura correta é: em Gonzaga, o animal alude ao gesto heroico atribuído a Glauceste; em Cecília, alude à criação poética. Isso corresponde à alternativa B.
Alternativa B.
Por que as outras alternativas estão erradas
- APégaso é animal mitológico nos dois textos; em Gonzaga não é um animal real.
- CCecília não busca tom épico (a fala dos maldizentes é irônica) e Gonzaga não trata de diferenças com Glauceste, a quem pede ajuda.
- DAtribui a Gonzaga uma referência às próprias características heroicas, quando o heroísmo é sugerido a Glauceste.
- EGenérica: Pégaso é figura convencional da tradição árcade e não gera estranhamento; ignora a função específica em cada texto.
Assuntos: arcadismo, intertextualidade, mitologia na poesia.
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