Questão 83 da FUVEST 2025

1ª fase

O funcionário público como personagem literário ganha destaque na literatura brasileira a partir dos anos 1930. Uma explicação para esse fenômeno está na tematização, por parte dos escritores, das mudanças do papel do Estado brasileiro na constituição do mercado de trabalho assalariado e como agente da modernização do país:

“De 1930 em diante, foram criadas dezenas de comissões, instituições e órgãos de planejamento e/ou de promoção das atividades econômicas, notadamente as ligadas às atividades agrícolas e àquelas voltadas para a industrialização.”

MATTOS, Fernando Augusto Mansor de. A trajetória do emprego público no Brasil desde o início do século XX. Ensaios FEE, v.36, n.1, p.95, jun.2015.

No romance Os ratos, de Dyonélio Machado, o funcionalismo público configura-se como

  1. A
    solução final para o conflito básico da narrativa, uma vez que é a partir de seu emprego público que o protagonista do romance obtém recursos para superar as limitações financeiras que, inicialmente, impulsionam sua perambulação pela cidade.
  2. B
    principal opção de sobrevivência para os homens livres da sociedade brasileira recém-saída da escravidão, em especial para os personagens negros, a quem era impossível, de outro modo, alçar posições nos estratos sociais mais elevados.
  3. C
    retrato da constituição de uma cultura organizacional ligada ao Estado, cuja dinâmica conduz, ao longo do século XX, ao desenvolvimento econômico do país e à vertiginosa ascensão social das classes médias, apontada pelo desfecho positivo do romance.
  4. D
    opção de ocupação para as camadas médias da sociedade brasileira, que, embora constitua meio legítimo de sobrevivência, acaba por marginalizá-las pela precarização dos ganhos e a desvalorização do trabalho, como retrata a trajetória do protagonista.
  5. E
    estrutura de trabalho de cunho patrimonialista, cujas posições de autoridade são ocupadas pelas camadas proprietárias e na qual a distribuição de cargos públicos, entre os quais o do protagonista, objetivava a garantia de apoio político e social.
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Resolução comentada

Os ratos (1935), de Dyonélio Machado, acompanha um único dia de Naziazeno Barbosa, funcionário público de baixo escalão (um modesto cargo numa repartição) em Porto Alegre. Ele deve dinheiro ao leiteiro, que ameaça cortar o fornecimento, e precisa juntar 53 mil-réis até o fim do dia. Toda a narrativa é a perambulação angustiada pela cidade atrás desse dinheiro.

O conceito central é a classe média urbana empobrecida. O emprego público, que surge nos anos 1930 com a expansão do Estado, é uma ocupação legítima, mas de salário insuficiente. Por isso o protagonista vive endividado e humilhado, tendo de pedir empréstimos e recorrer a expedientes duvidosos.

Conferindo as alternativas:

  1. A cargo público não resolve o conflito: o dinheiro vem de um empréstimo, obtido de forma precária no fim do dia, e a situação segue frágil.
  2. B trata do pós-abolição e de personagens negros, tema que não está no romance.
  3. C fala em ascensão social e desfecho positivo, o oposto do quadro de penúria e de alívio apenas momentâneo.
  4. E pinta o funcionalismo como estrutura patrimonialista de troca de apoio político, coisa que a obra não trata.
  5. D descreve o emprego como meio legítimo de sobrevivência, que porém precariza e marginaliza a classe média, o que combina com a trajetória de Naziazeno.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO emprego público não resolve o conflito: o dinheiro vem de um empréstimo precário e a penúria continua.
  • BDesloca o tema para o pós-abolição e para personagens negros, ausentes do foco do romance.
  • CFala em ascensão social e desfecho positivo, quando o romance mostra empobrecimento e alívio apenas momentâneo.
  • EAtribui ao romance uma crítica patrimonialista, com cargos distribuídos por apoio político, que não é o seu tema.

Assuntos: Os ratos, Dyonélio Machado, romance de 1930.

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