Questão 44 da FUVEST 2025

1ª fase

Tirinha com os personagens Calvin e Haroldo. Calvin, gesticulando, diz: "Sabe o que é estranho? Nada parece mudar de um dia para o outro, mas de repente tudo fica diferente.", enquanto Haroldo observa em pé.

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“Quem negaria que os futuros ainda não são? Mas já está na mente a espera dos futuros. E quem negaria que os passados já não são? Todavia, ainda está na mente a memória dos passados. E quem negaria que o tempo presente não tem extensão temporal, porque passa em um instante? Todavia, perdura a atenção, pela qual o que está presente se encaminha para a ausência.”

Agostinho de Hipona. Confissões.

Ao propor uma aproximação entre a fala da personagem Calvin no quadrinho e o trecho citado das Confissões de Agostinho, é possível encontrar semelhanças com relação à descrição do tempo e sua compreensão filosófica. Dentre as afirmativas a seguir, qual delas pode ser considerada verdadeira para ambos os casos?

  1. A
    A passagem do tempo é ilusória.
  2. B
    O tempo desfaz a mudança.
  3. C
    Há um paradoxo na compreensão do tempo.
  4. D
    Os momentos do tempo identificam-se entre si.
  5. E
    Há ruptura completa entre o tempo presente e o futuro.
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Resolução comentada

O que os dois textos têm em comum é a estranheza diante do tempo: ele é algo que vivemos o tempo todo, mas que, quando pensamos nele, parece contraditório.

Na tirinha, Calvin diz que "nada parece mudar de um dia para o outro, mas de repente tudo fica diferente". Há duas afirmações que não combinam: a mudança não é percebida no dia a dia, mas aparece no resultado final. Ele mesmo chama isso de "estranho".

Em Agostinho, o paradoxo é explícito, com três casos:

  1. O futuro "ainda não é", mas está na mente como expectativa.
  2. O passado "já não é", mas está na mente como memória.
  3. O presente não tem extensão, pois passa em um instante, mas a atenção o faz durar.

Em cada caso, algo que não existe (ou quase não existe) é, ao mesmo tempo, presente na mente. Isso é um paradoxo: uma aparente contradição na compreensão do tempo.

As demais ideias não valem para os dois textos. Nenhum deles diz que o tempo é ilusório, nem que desfaz a mudança. Agostinho não identifica os momentos entre si: distingue passado, presente e futuro. E o futuro, para ele, está ligado ao presente pela espera, então não há ruptura completa.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • ANem Calvin nem Agostinho dizem que a passagem do tempo é ilusória; Calvin até afirma que tudo muda.
  • BA tirinha diz que o tempo produz mudança ("tudo fica diferente"), não que a desfaz.
  • DAgostinho distingue passado, presente e futuro (não são, já não são, passa), sem identificá-los.
  • EPara Agostinho, o futuro está na mente como espera, ligado ao presente; não há ruptura completa.

Assuntos: filosofia do tempo, Agostinho, interpretação de charge.

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