Questão 3 da FUVEST 2024
A arte foi e ainda pode ser utilizada para criar, reforçar e disseminar ideias, valores e estereótipos, mas também pode colocá-los em discussão. A obra “Sentem para jantar”, de Gê Viana, faz parte da série “Atualizações traumáticas de Debret”, na qual o artista propõe uma revisão iconográfica da história do Brasil tendo como referência as obras de Jean-Baptiste Debret, especificamente aquelas presentes em “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” (1834-1839), publicação que pautou de maneira imagética o período colonial brasileiro. Em sua revisão, Gê Viana dá continuidade ao seu projeto de análise crítica de representações históricas, produzindo releituras de algumas dessas obras, dentre as quais, a obra “Um jantar brasileiro”, do artista francês. A seguir, são reproduzidos os quadros desses dois artistas.

Jean-Baptiste Debret. “Um jantar brasileiro”, 1827. Aquarela, 15,7 x 22 cm. Disponível em http://museuscastromaya.com.br/.

Gê Viana. “Sentem para jantar”, 2021. Impressão em jato de tinta com pigmento natural de colagem digital sobre papel Hahnemuhle Photo Rag 308\text{ g/m}^2; 29,7 x 42 cm. Disponível em https://mam.rio/ge-viana/.
Com base nas informações e imagens apresentadas, assinale a alternativa que corresponde à abordagem adotada por Gê Viana em sua obra “Sentem para jantar”, ao utilizar como referência a obra “Um jantar brasileiro”, de Jean-Baptiste Debret.
- AGê Viana reproduz, em sua obra, as mesmas relações sociais representadas na obra de Debret.
- BGê Viana exalta, em sua obra, especialmente as características físicas das pessoas retratadas, enquanto Debret enfatiza as relações pessoais.
- CGê Viana emprega, em sua obra, as mesmas técnicas e os mesmos materiais utilizados na obra de Debret, o que lhes confere grande semelhança.
- DGê Viana ignora aspectos relacionados a questões étnico-raciais em sua releitura da obra de Debret, focando apenas na estética visual da obra.
- EGê Viana busca desconstruir, em sua obra, os estereótipos étnico-raciais presentes na obra original de Debret.
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Resolução comentada
A questão pede a abordagem de Gê Viana ao reler a obra de Debret. Vale comparar as duas imagens.
Em Debret (1827), a cena mostra uma família branca à mesa, servida por pessoas negras escravizadas. Uma mulher segura o abanador, um homem fica em pé de braços cruzados e as crianças negras estão no chão, junto à senhora. Essa composição naturaliza a hierarquia racial e a escravidão, com o negro em posição subalterna e o branco em posição de poder.
Em "Sentem para jantar" (2021), a composição é a mesma, com a mesa, a toalha rendada, o prato assado e as frutas. Mas agora pessoas negras ocupam os lugares à mesa, bem vestidas, em ambiente doméstico sofisticado, com armário, quadro e planta. A criança negra não está no chão, mas em pé, com um dispositivo na mão. A inversão de posições questiona o estereótipo do negro como servo e devolve dignidade e protagonismo a essas pessoas. Isso é uma revisão crítica, como o enunciado indica ao falar da série "Atualizações traumáticas de Debret".
Agora, as alternativas:
- As relações sociais não são as mesmas, pois foram invertidas.
- O foco não está nas características físicas, e sim nas posições sociais.
- As técnicas diferem: aquarela em Debret, colagem digital impressa em Gê Viana.
- As questões étnico-raciais são justamente o centro da obra.
- A obra desconstrói os estereótipos presentes em Debret.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AAs relações sociais foram invertidas: pessoas negras ocupam a mesa, em vez de servir.
- BO foco de Gê Viana está nas posições sociais, e Debret também retrata relações de poder, não só pessoais.
- CAs técnicas são diferentes: aquarela em Debret e colagem digital impressa em Gê Viana.
- DAs questões étnico-raciais são o eixo da releitura, que não se limita à estética.
Assuntos: arte e representação histórica, releitura crítica, questões étnico-raciais.
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