Questão 39 da FUVEST 2023
TEXTO PARA AS QUESTÕES 38 E 39
O QUINTO IMPÉRIO
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz —
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa. Mensagem.
Mensagem reconduz a história de Portugal a partir de uma reinterpretação do tempo histórico. No poema, o tempo é encarado segundo uma concepção
- Anostálgica, devido à presença de modelos situados no passado.
- Bmaterialista, por efeito da aspiração burguesa de um lar confortável.
- Cmística, em razão do prognóstico de um futuro metafísico.
- Dbiológica, por mérito da aceitação do ciclo natural da existência.
- Epsicológica, em virtude da referência ao substantivo “sonho”.
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Resolução comentada
O poema de Pessoa trata do mito do Quinto Império, ideia de origem profética (Padre António Vieira, Bandarra, sebastianismo). Nele, a história é dividida em ciclos: Grécia, Roma, Cristandade e Europa, os "quatro tempos", que "se vão para onde vai toda idade". Depois deles virá um quinto tempo, em que "a terra será teatro do dia claro", ou seja, um império espiritual e universal, ligado ao retorno de D. Sebastião ("Quem vem viver a verdade que morreu D. Sebastião?").
Portanto, o tempo é visto como uma sucessão de ciclos que caminha para um futuro de revelação e plenitude, previsto de modo profético. Isso é uma concepção mística, com um prognóstico de futuro que não é material, e sim espiritual (metafísico).
Conferindo as demais: o passado não é modelo a ser restaurado, pois os quatro impérios "se vão"; o poema despreza o lar confortável e a felicidade burguesa ("Triste de quem é feliz!"); não há aceitação do ciclo biológico, já que a "sepultura" é lamentada; e "sonho" é só um elemento do poema, não define a concepção de tempo.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AOs modelos do passado (Grécia, Roma, Cristandade, Europa) são apresentados como ciclos que acabaram; o poema olha para o futuro, não para o passado com saudade.
- BO poema rejeita o lar confortável e a felicidade acomodada ("Triste de quem é feliz!"), o oposto de uma aspiração materialista.
- DA vida que "dura" e termina na "sepultura" é criticada; o poema propõe superar esse ciclo, não aceitá-lo.
- E"Sonho" aparece no texto, mas a concepção de tempo em questão é a histórica e profética, não a psicológica.
Assuntos: Fernando Pessoa, Mensagem, sebastianismo e Quinto Império.
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