Questão 12 da FUVEST 2017
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 10 A 12
CAPÍTULO LIII
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Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; — era o que dizia, e era verdade.
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou- se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, — coitadinha, — trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, — breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, — uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, — vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.
Dentre os recursos expressivos empregados no texto, tem papel preponderante a
- Ametonímia (uso de uma palavra fora do seu contexto semântico normal, com base na relação de contiguidade existente entre ela e o referente).
- Bhipérbole (ênfase expressiva resultante do exagero da significação linguística).
- Calegoria (sequência de metáforas logicamente ordenadas).
- Dsinestesia (associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão).
- Eprosopopeia (atribuição de sentimentos humanos ou de palavras a seres inanimados ou a animais).
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Resolução comentada
O texto compara o amor de Brás e Virgília a uma planta: "Há umas plantas que nascem e crescem depressa"; o amor "brotou com tal ímpeto e tanta seiva", virou "a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques"; depois "abotoou-se a flor", que é o beijo. Por fim, o beijo é "prólogo" e o conjunto da relação vira um "livro".
Alegoria é uma sequência de metáforas encadeadas com lógica, que desenvolve uma ideia por meio de outra. Veja como isso acontece aqui:
- O amor é a planta.
- O início rápido do amor é o crescimento veloz, com "seiva" e "ímpeto".
- O primeiro beijo é a flor que se abotoa.
- A relação inteira é um livro, e o beijo é o prólogo.
Essas imagens se encadeiam ao longo do trecho e dominam a construção, formando uma alegoria do amor como planta que cresce e floresce.
Outros recursos aparecem, mas de modo pontual. Há exageros, como "a mais vasta" das criaturas, mas eles servem à imagem da planta e não organizam o texto. Metonímia, sinestesia e prosopopeia não sustentam o trecho.
Alternativa C.
Por que as outras alternativas estão erradas
- ANão há substituição de um termo por outro por contiguidade que organize o texto; as imagens são metafóricas, não metonímicas.
- BHá algum exagero pontual ("a mais vasta"), mas ele não é o recurso que estrutura o trecho.
- DNão há mistura predominante de sensações diferentes; a sinestesia não é o recurso central.
- EO amor é comparado a uma planta, não se atribuem sentimentos humanos a seres inanimados ou animais de forma predominante.
Assuntos: figuras de linguagem, alegoria, Machado de Assis.
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