Questão 11 da FUVEST 2017

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 10 A 12

CAPÍTULO LIII

. . . . . . .

Virgília é que já se não lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim, nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; — era o que dizia, e era verdade.

Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques. Não lhes poderei dizer, ao certo, os dias que durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou- se a flor, ou o beijo, se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trêmula, — coitadinha, — trêmula de medo, porque era ao portão da chácara. Uniu-nos esse beijo único, — breve como a ocasião, ardente como o amor, prólogo de uma vida de delícias, de terrores, de remorsos, de prazeres que rematavam em dor, de aflições que desabrochavam em alegria, — uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio, — vida de agitações, de cóleras, de desesperos e de ciúmes, que uma hora pagava à farta e de sobra; mas outra hora vinha e engolia aquela, como tudo mais, para deixar à tona as agitações e o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prólogo.

Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas.

No último período do texto, o ritmo que o narrador imprime ao relato de seus amores corresponde sobretudo ao que se encontra expresso em

  1. A
    “prólogo de uma vida de delícias” (L. 13-14).
  2. B
    “prazeres que rematavam em dor” (L. 14-15).
  3. C
    “hipocrisia paciente e sistemática” (L. 16).
  4. D
    “paixão sem freio” (L. 17).
  5. E
    “o livro daquele prólogo” (L. 21-22).
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O ritmo narrativo é a maneira como a organização das frases faz o relato avançar: ele pode parecer lento, interrompido ou acelerado. Aqui, o último período começa em “Uniu-nos esse beijo único” e se prolonga até o fim do trecho.

Nesse período, o narrador acumula sensações e acontecimentos: “delícias”, “terrores”, “remorsos”, “agitações”, “cóleras”, “desesperos” e “ciúmes”. As enumerações, as repetições e as sucessivas orações fazem uma experiência se encadear à outra, criando um movimento intenso, que parece difícil de conter.

Esse ritmo corresponde sobretudo à expressão “paixão sem freio”: a intensidade do relacionamento aparece não apenas no que é contado, mas também na forma expansiva e acumulativa de contar.

“Prazeres que rematavam em dor” expressa a alternância de sentimentos, mas não caracteriza tão diretamente o ritmo. Já “hipocrisia paciente e sistemática” indica o controle necessário para esconder o relacionamento, em contraste com o impulso da paixão. As referências a “prólogo” e “livro” apresentam o beijo como início da história amorosa.

Alternativa D.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AApresenta o beijo como início da experiência amorosa, sem caracterizar o ritmo intenso do relato.
  • BExpressa a transformação do prazer em sofrimento, e não sobretudo o ritmo acumulativo da narração.
  • CIndica a dissimulação controlada do relacionamento, em contraste com o ritmo intenso do período.
  • ERetoma a metáfora da história amorosa como livro, sem definir o ritmo narrativo.

Assuntos: ritmo narrativo, recursos expressivos, machado de assis.

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