Questão 82 da FUVEST 2016
Eu por vezes tenho dito a V. A. aquilo que me parecia acerca dos negócios da França, e isto por ver por conjecturas e aparências grandes aquilo que podia suceder dos pontos mais aparentes, que consigo traziam muito prejuízo ao estado e aumento dos senhorios de V. A. E tudo se encerrava em vós, Senhor, trabalhardes com modos honestos de fazer que esta gente não houvesse de entrar nem possuir coisa de vossas navegações, pelo grandíssimo dano que daí se podia seguir.
Serafim Leite. Cartas dos primeiros jesuítas do Brasil, 1954.
O trecho acima foi extraído de uma carta dirigida pelo padre jesuíta Diogo de Gouveia ao Rei de Portugal D. João III, escrita em Paris, em 17/02/1538. Seu conteúdo mostra
- Aa persistência dos ataques franceses contra a América, que Portugal vinha tentando colonizar de modo efetivo desde a adoção do sistema de capitanias hereditárias.
- Bos primórdios da aliança que logo se estabeleceria entre as Coroas de Portugal e da França e que visava a combater as pretensões expansionistas da Espanha na América.
- Ca preocupação dos jesuítas portugueses com a expansão de jesuítas franceses, que, no Brasil, vinham exercendo grande influência sobre as populações nativas.
- Do projeto de expansão territorial português na Europa, o qual, na época da carta, visava à dominação de territórios franceses tanto na Europa quanto na América.
- Ea manifestação de um conflito entre a recém-criada ordem jesuíta e a Coroa portuguesa em torno do combate à pirataria francesa.
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Resolução comentada
O documento é uma carta de 1538, escrita em Paris por um padre português ao rei D. João III. Nela, o padre alerta o rei sobre os "negócios da França" e pede que ele faça com que "esta gente não houvesse de entrar nem possuir coisa de vossas navegações", pelo "grandíssimo dano" que isso causaria. Ou seja, os franceses ameaçam as navegações e as possessões portuguesas, e o rei deve impedir essa presença.
Para situar a carta no tempo:
- Em 1494, o Tratado de Tordesilhas dividiu o mundo entre Portugal e Espanha. A França ficou de fora e contestou a divisão, dizendo desconhecer a cláusula de Adão que a excluía.
- Os franceses faziam contrabando de pau-brasil no litoral, em aliança com os indígenas, e corsários atacavam navios portugueses.
- Em 1534, D. João III adotou as capitanias hereditárias justamente para povoar e defender a costa, que estava pouco ocupada.
A carta de 1538 é posterior a essa adoção e mostra que a ameaça francesa continuava. Isso corresponde à alternativa A.
Nenhuma das outras serve. Não há aliança luso-francesa, nem jesuítas franceses no Brasil em 1538, nem expansão portuguesa na Europa. A Companhia de Jesus foi aprovada em 1540 e chegou ao Brasil só em 1549. O autor, além disso, é um padre aliado do rei, e não um opositor dele.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BNão houve aliança luso-francesa; a carta mostra a França como ameaça às navegações portuguesas.
- COs jesuítas só chegaram ao Brasil em 1549, e a carta trata de franceses em geral, não de jesuítas franceses.
- DPortugal não tinha projeto de conquistar territórios franceses; a carta expressa defesa diante da França.
- EO jesuíta age em apoio ao rei, sem conflito com a Coroa, e a ordem ainda nem fora oficialmente criada em 1538.
Assuntos: período pré-colonial, capitanias hereditárias, invasões francesas.
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