Questão 56 da FUVEST 2016
TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 53 A 57
Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d’África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara. Fora o lazareto*. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro sertão. E os negros, os ogãs, as filhas e pais de santo cantam:
Ele é mesmo nosso pai
e é quem pode nos ajudar...
Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros não o esqueçam avisa no seu cântico de despedida:
Ora, adeus, ó meus filhinhos,
Qu’eu vou e torno a vortá...
E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas, numa noite de mistério da Bahia, Omolu pulou na máquina da Leste Brasileira e foi para o sertão de Juazeiro. A bexiga foi com ele.
Jorge Amado, Capitães da Areia.
* lazareto: estabelecimento para isolamento sanitário de pessoas atingidas por determinadas doenças.
Apesar das diferenças notáveis que existem entre estas obras, um aspecto comum ao texto de Capitães da Areia, considerado no contexto do livro, e Vidas secas, de Graciliano Ramos, é
- Aa consideração conjunta e integrada de questões culturais e conflitos de classe.
- Ba reprodução fiel da variante oral-popular da linguagem, como recurso principal na caracterização das personagens.
- Co engajamento nas correntes literárias nacionalistas, que rejeitavam a opção por temas regionais.
- Do emprego do discurso doutrinário, de caráter panfletário e didatizante, próprio do “realismo socialista”.
- Eo tratamento enfático e conjugado da mestiçagem racial e da desigualdade social.
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Resolução comentada
As duas obras pertencem ao romance regionalista de 1930, que faz denúncia social a partir da miséria dos marginalizados: os meninos de rua de Salvador em Jorge Amado e a família de retirantes do sertão em Graciliano Ramos.
No trecho de Capitães da Areia, Omolu é um deus africano, isto é, um elemento da cultura e da religiosidade afro-brasileira (macumbas, ogãs, atabaques). Ao mesmo tempo, a divisão é de classe: os ricos têm a vacina, os pobres morrem no lazareto. Cultura e conflito de classe aparecem juntos, com a religião dos pobres expressando a revolta contra os ricos.
Em Vidas secas, a cultura e o modo de vida do sertanejo (linguagem, religiosidade, relação com a terra) também se articulam à exploração de Fabiano pelo patrão, pelo fiscal e pelo soldado amarelo.
Confirmando por eliminação:
- Graciliano não reproduz a fala popular como recurso principal; o narrador usa o discurso indireto livre e a fala das personagens é mínima.
- Os dois romances são regionalistas, não rejeitam o regional.
- Nenhum dos dois é panfletário ou didático; Graciliano, em especial, é seco e psicológico.
- A mestiçagem racial não é tema central de Vidas secas.
A característica comum é, portanto, a articulação entre cultura e conflito de classes.
Alternativa A.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BGraciliano usa pouco a fala das personagens e se apoia no discurso indireto livre, então a reprodução da oralidade não é o recurso principal.
- COs dois livros são regionalistas; a geração de 1930 não rejeitava temas regionais.
- DNenhuma das obras adota discurso doutrinário e panfletário; Vidas secas é sobretudo psicológica e contida.
- EA mestiçagem racial não é tema enfatizado em Vidas secas, cujo foco é a seca e a exploração.
Assuntos: romance de 1930, regionalismo, Jorge Amado e Graciliano Ramos.
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