Questão 55 da FUVEST 2016

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 53 A 57

Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d’África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara. Fora o lazareto*. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro sertão. E os negros, os ogãs, as filhas e pais de santo cantam:

Ele é mesmo nosso pai
e é quem pode nos ajudar...

Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros não o esqueçam avisa no seu cântico de despedida:

Ora, adeus, ó meus filhinhos,
Qu’eu vou e torno a vortá...

E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas, numa noite de mistério da Bahia, Omolu pulou na máquina da Leste Brasileira e foi para o sertão de Juazeiro. A bexiga foi com ele.

Jorge Amado, Capitães da Areia.

* lazareto: estabelecimento para isolamento sanitário de pessoas atingidas por determinadas doenças.

As informações contidas no texto permitem concluir corretamente que a doença de que nele se fala caracteriza-se como

  1. A
    moléstia contagiosa, de caráter epidêmico, causada por vírus.
  2. B
    endemia de zonas tropicais, causada por vírus, prevalente no período chuvoso do ano.
  3. C
    surto infeccioso de etiologia bacteriana, decorrente de más condições sanitárias.
  4. D
    infecção bacteriana que, em regra, apresenta-se simultaneamente sob uma forma branda e uma grave.
  5. E
    enfermidade endêmica que ocorre anualmente e reflui de modo espontâneo.
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Resolução comentada

O texto fala de "bexiga" (varíola) e de "alastrim" (varíola branda, causada por um vírus do mesmo grupo). Vamos ver o que o texto permite concluir.

  1. A doença "espalhou" pela cidade e "assolou o povo": ela se transmite de pessoa a pessoa, ou seja, é contagiosa. Há um surto que atinge muita gente ao mesmo tempo, o que é caráter epidêmico.
  2. Existe vacina ("os ricos tinham a vacina"), e o lazareto isola os doentes. Isso indica doença infecciosa transmissível.
  3. Omolu transforma a "bexiga negra" (forma grave) em "alastrim, bexiga branca" (forma branda). Isso mostra duas formas da mesma doença, mas o texto não diz que as duas ocorrem sempre juntas.
  4. A causa: bexiga e alastrim são varíola, doença viral. O texto não cita bactéria; quem conhece o assunto sabe que o agente é um vírus.

Análise: o texto não fala de período chuvoso nem de ocorrência anual (descarta B e E), e a causa não é bacteriana (descarta C e D). Resta a A: moléstia contagiosa, epidêmica e viral.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BO texto não trata de endemia, de zona tropical nem de período chuvoso; a doença chega como surto.
  • CBexiga (varíola) e alastrim são causados por vírus, não por bactérias, e o texto não atribui a doença a más condições sanitárias.
  • DAtribui causa bacteriana, o que é errado; a varíola é viral.
  • ENão há indicação de ocorrência anual nem de regressão espontânea; o texto descreve epidemia com mortes.

Assuntos: varíola, epidemia e doenças virais, interpretação de texto.

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