Questão 57 da FUVEST 2016

1ª fase

TEXTO PARA AS QUESTÕES DE 53 A 57

Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das florestas d’África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara. Fora o lazareto*. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro sertão. E os negros, os ogãs, as filhas e pais de santo cantam:

Ele é mesmo nosso pai
e é quem pode nos ajudar...

Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros não o esqueçam avisa no seu cântico de despedida:

Ora, adeus, ó meus filhinhos,
Qu’eu vou e torno a vortá...

E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas, numa noite de mistério da Bahia, Omolu pulou na máquina da Leste Brasileira e foi para o sertão de Juazeiro. A bexiga foi com ele.

Jorge Amado, Capitães da Areia.

* lazareto: estabelecimento para isolamento sanitário de pessoas atingidas por determinadas doenças.

Das propostas de substituição para os trechos sublinhados nas seguintes frases do texto, a única que faz, de maneira adequada, a correção de um erro gramatical presente no discurso do narrador é:

  1. A
    “Assim mesmo morrera negro, morrera pobre.”: havia morrido negro, havia morrido pobre.
  2. B
    “Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara.”: Omolu dizia, no entanto, que não fora.
  3. C
    “Eles tinham dinheiro, léguas e léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina.”: mas tão pouco sabiam da vacina.
  4. D
    “Mas para que seus filhos negros não o esqueçam [...].”: não lhe esqueçam.
  5. E
    “E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas [...].”: numa noite em que os atabaques.
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Resolução comentada

A questão pede a correção de um erro gramatical no discurso do narrador. Vamos ver qual trecho tem erro de fato.

No trecho "E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas", o pronome relativo "que" exerce a função de adjunto adverbial de tempo: os atabaques batiam naquela noite. Quando o verbo da oração relativa pede preposição, o relativo deve vir precedido dela: "numa noite em que os atabaques batiam". Sem a preposição, há erro de regência, bastante comum na fala, mas que a norma-padrão não aceita.

Verificando as demais:

  1. (A) "morrera" e "havia morrido" são equivalentes (mais-que-perfeito simples e composto), e não havia erro a corrigir.
  2. (B) Trocar "Mas" por "no entanto" só muda a conjunção, sem corrigir erro algum.
  3. (C) "tampouco" (= também não) está correto; "tão pouco" tem outro sentido e a troca criaria erro.
  4. (D) "esqueçam" é transitivo direto, e "o" está correto; "lhe" seria inadequado.

Só a proposta de (E) corrige, de fato, uma falha de regência.

Alternativa E.

Pegadinha: A alternativa C engana por confundir "tampouco" com "tão pouco", que parecem equivalentes mas têm sentidos diferentes.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO trecho original já está correto; "morrera" e "havia morrido" são formas equivalentes, sem correção.
  • BApenas troca a conjunção "mas" por "no entanto", sem corrigir nenhum erro.
  • C"Tampouco" está correto; "tão pouco" tem outro sentido e introduziria erro.
  • D"Esquecer" aqui é transitivo direto, então "o" está certo; "lhe" seria inadequado.

Assuntos: regência do pronome relativo, pronomes oblíquos, tampouco x tão pouco.

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