Questão 74 da FUVEST 2012
Os indígenas foram também utilizados em determinados momentos, e sobretudo na fase inicial [da colonização do Brasil]; nem se podia colocar problema nenhum de maior ou melhor “aptidão” ao trabalho escravo (...). O que talvez tenha importado é a rarefação demográfica dos aborígines, e as dificuldades de seu apresamento, transporte, etc. Mas na “preferência” pelo africano revela-se, mais uma vez, a engrenagem do sistema mercantilista de colonização; esta se processa num sistema de relações tendentes a promover a acumulação primitiva de capitais na metrópole; ora, o tráfico negreiro, isto é, o abastecimento das colônias com escravos, abria um novo e importante setor do comércio colonial, enquanto o apresamento dos indígenas era um negócio interno da colônia. Assim, os ganhos comerciais resultantes da preação dos aborígines mantinham-se na colônia, com os colonos empenhados nesse “gênero de vida”; a acumulação gerada no comércio de africanos, entretanto, fluía para a metrópole; realizavam-na os mercadores metropolitanos, engajados no abastecimento dessa “mercadoria”. Esse talvez seja o segredo da melhor “adaptação” do negro à lavoura ... escravista. Paradoxalmente, é a partir do tráfico negreiro que se pode entender a escravidão africana colonial, e não o contrário.
Fernando A. Novais. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec, 1979, p. 105. Adaptado.
Nesse trecho, o autor afirma que, na América portuguesa,
- Aos escravos indígenas eram de mais fácil obtenção do que os de origem africana, e por isso a metrópole optou pelo uso dos primeiros, já que eram mais produtivos e mais rentáveis.
- Bos escravos africanos aceitavam melhor o trabalho duro dos canaviais do que os indígenas, o que justificava o empenho de comerciantes metropolitanos em gastar mais para a obtenção, na África, daqueles trabalhadores.
- Co comércio negreiro só pôde prosperar porque alguns mercadores metropolitanos preocupavam-se com as condições de vida dos trabalhadores africanos, enquanto que outros os consideravam uma “mercadoria”.
- Da rentabilidade propiciada pelo emprego da mão de obra indígena contribuiu decisivamente para que, a partir de certo momento, também escravos africanos fossem empregados na lavoura, o que resultou em um lucrativo comércio de pessoas.
- Eo principal motivo da adoção da mão de obra de origem africana era o fato de que esta precisava ser transportada de outro continente, o que implicava a abertura de um rentável comércio para a metrópole, que se articulava perfeitamente às estruturas do sistema de colonização.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
Novais explica a escravidão africana pelo lado do sistema colonial, e não por supostas qualidades do trabalhador. Acompanhe o raciocínio do texto:
- Ele descarta a ideia de maior "aptidão" do africano para o trabalho escravo: "nem se podia colocar problema nenhum de maior ou melhor aptidão".
- No mercantilismo, a colônia existe para gerar acumulação primitiva de capitais na metrópole.
- O apresamento de indígenas era "um negócio interno da colônia": o lucro ficava com os colonos.
- O tráfico de africanos abria "um novo e importante setor do comércio colonial": o lucro fluía para os mercadores metropolitanos.
- Conclusão do autor: é a partir do tráfico que se entende a escravidão africana, e não o contrário.
Logo, o motivo central da preferência pelo africano foi o fato de ele vir de outro continente, o que criava um comércio lucrativo para a metrópole, em perfeita sintonia com a lógica do sistema colonial.
Essa ideia aparece na alternativa E, que reproduz a tese do texto.
Alternativa E.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AInverte o texto: o autor diz que o indígena era um negócio interno da colônia, sem lucro para a metrópole, e não que a metrópole o preferiu.
- BAtribui a preferência à maior aceitação do trabalho pelo africano, tese que o autor rejeita ao negar diferença de aptidão.
- CIntroduz a preocupação de mercadores com as condições dos africanos, ideia ausente do texto.
- DDiz que o lucro com o indígena levou ao uso do africano; o texto explica o africano pelo interesse metropolitano no tráfico.
Assuntos: escravidão colonial, mercantilismo, tráfico negreiro.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova