Questão 72 da FUVEST 2011
Texto para as questões de 70 a 74
Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna. O navio a que o marujo pertencia viajava para a Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a largar. — Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa, você também não é sangrador? — Sim, eu também sangro... — Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que é uma praga. — Homem, eu da cirurgia não entendo muito... — Pois já não disse que sabe também sangrar? — Sim... — Então já sabe até demais. No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio negreiro; restava unicamente saber* fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta. Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes, e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado. Chegaram com feliz viagem ao seu destino; tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe a sólida reputação de entendedor do riscado.
Manuel Antônio de Almeida,
Memórias de um sargento de milícias.
Neste trecho, em que narra uma cena relacionada ao tráfico de escravos, o narrador não emite julgamento direto sobre essa prática. Ao adotar tal procedimento, o narrador
- Arevela-se cúmplice do mercado negreiro, pois fica subentendido que o considera justo e irrepreensível.
- Bantecipa os métodos do Realismo–Naturalismo, o qual, em nome da objetividade, também abolirá os julgamentos de ordem social, política e moral.
- Cprefigura a poesia abolicionista de Castro Alves, que irá empregá-lo para melhor expor à execração pública o horror da escravidão.
- Dcontribui para que se constitua a atmosfera de ausência de culpa que caracteriza a obra.
- Emostra-se consciente de que a responsabilidade pelo comércio de escravos cabia, principalmente, aos próprios africanos, e não ao tráfico negreiro.
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Resolução comentada
O romance de Manuel Antônio de Almeida retrata um Rio de Janeiro em que a ordem e a desordem se misturam, e em que a malandragem, o jeitinho e o favor regem as relações. Quase ninguém é julgado moralmente: os personagens agem por conveniência, e o narrador conta tudo com leve ironia, sem condenar nem aprovar.
No trecho, o barbeiro vira "médico" de navio negreiro só porque sabe sangrar. A cena é tratada como um lance de sorte ("Foi a sua salvação e fortuna"). O tráfico aparece como mero pano de fundo, sem nenhuma condenação. Esse tom neutro e naturalizador reforça o clima geral da obra, em que o erro, a fraude e a injustiça não geram culpa nem punição.
Avaliando as alternativas:
- Não julgar não significa aprovar, então não se pode afirmar que o narrador seja cúmplice e ache o tráfico justo.
- O Realismo-Naturalismo não abole o julgamento moral e social: ele faz crítica social intensa. A comparação não procede.
- Castro Alves condena o tráfico de forma explícita e indignada, o oposto da neutralidade do narrador.
- A ausência de culpa é justamente a atmosfera do romance, construída também por esse distanciamento do narrador.
- Nada no texto atribui a responsabilidade aos africanos.
Portanto, o silêncio do narrador ajuda a compor o universo amoral e sem culpa do livro.
Alternativa D.
Pegadinha: A alternativa A engana quem confunde neutralidade do narrador com aprovação do tráfico negreiro.
Por que as outras alternativas estão erradas
- Aconfunde ausência de julgamento com aprovação; o texto não diz que o tráfico é justo.
- Bo Realismo-Naturalismo faz crítica social e moral, não a abole; a comparação é indevida.
- CCastro Alves denuncia o tráfico com veemência, o oposto da neutralidade do narrador.
- Eo texto não atribui responsabilidade aos africanos; isso é invenção sem apoio no trecho.
Assuntos: Memórias de um sargento de milícias, narrador, Romantismo.
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