Questão 73 da FUVEST 2011
Texto para as questões de 70 a 74
Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna. O navio a que o marujo pertencia viajava para a Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e estava pronto a largar. — Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa, você também não é sangrador? — Sim, eu também sangro... — Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que é uma praga. — Homem, eu da cirurgia não entendo muito... — Pois já não disse que sabe também sangrar? — Sim... — Então já sabe até demais. No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a médico de navio negreiro; restava unicamente saber* fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta. Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes, e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado. Chegaram com feliz viagem ao seu destino; tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe a sólida reputação de entendedor do riscado.
Manuel Antônio de Almeida,
Memórias de um sargento de milícias.
Assim como faz o barbeiro, nesse trecho de Memórias de um sargento de milícias, também a personagem José Dias, de Dom Casmurro, irá se passar por médico (homeopata), para obter meios de subsistência. Essa correlação indica que
I. estamos diante de uma linha de continuidade temática entre o romance de Manuel Antônio de Almeida e o romance machadiano da maturidade.
II. agregados transgrediam com bastante desenvoltura princípios morais básicos, razão pela qual eram proibidos de conviver com a rígida família patriarcal do Império.
III. os protagonistas desses romances decalcam um mesmo modelo literário: o do pícaro, herói do romance picaresco espanhol.
Está correto o que se afirma em
- AI, apenas.
- BII, apenas.
- CI e II, apenas.
- DII e III, apenas.
- EI, II e III.
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Resolução comentada
Vamos avaliar cada afirmação.
I. Correta. O barbeiro de Memórias de um sargento de milícias e José Dias, de Dom Casmurro, usam o mesmo expediente: fingem um saber médico para sobreviver. Isso mostra uma continuidade temática entre o romance de Manuel Antônio de Almeida e o de Machado de Assis, a figura do homem pobre que vive de favor e de esperteza na sociedade brasileira oitocentista.
II. Errada. Os agregados não eram proibidos de conviver com a família patriarcal. Eles dependiam dela e viviam em sua casa, em posição de favor, como faz José Dias na casa de Bentinho. A afirmação inverte a relação e ainda generaliza que agregados transgrediam princípios morais.
III. Errada. O barbeiro se aproxima do pícaro, mas o protagonista de Memórias, Leonardo, e Bentinho, protagonista de Dom Casmurro, não repetem o modelo picaresco espanhol. Bentinho é um proprietário, burguês e ciumento. A correlação do enunciado envolve coadjuvantes (o barbeiro e José Dias), não os protagonistas. Por isso não se pode dizer que os protagonistas decalcam o pícaro.
Só a afirmação I está correta.
Alternativa A.
Pegadinha: A afirmação III engana porque o barbeiro lembra o pícaro, mas o texto fala de coadjuvantes; os protagonistas (Leonardo e Bentinho) não decalcam esse modelo.
Por que as outras alternativas estão erradas
- BA afirmação II é falsa: agregados viviam na casa da família patriarcal, em relação de favor, e não eram proibidos de conviver com ela.
- CInclui a II, que é falsa, pois os agregados dependiam da família patriarcal e conviviam com ela.
- DExclui a I, que é verdadeira, e inclui a II e a III, ambas falsas.
- EInclui II e III, que são falsas: os agregados conviviam com a família e os protagonistas não são pícaros.
Assuntos: romance brasileiro do século XIX, Memórias de um sargento de milícias, Dom Casmurro.
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