Questão 32 da FUVEST 2010

1ª fase

Inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão quando se fizer preciso.

Jorge Amado, Capitães de areia.

O tipo cujo perfil se traça, em linhas gerais, neste excerto, aparece em romances como Memórias de um sargento de milícias, O cortiço, além de Capitães de areia. Essa recorrência indica que

  1. A
    certas estruturas e tipos sociais originários do período colonial foram repostos durante muito tempo, nos processos de transformação da sociedade brasileira.
  2. B
    o atraso relativo das regiões Norte e Nordeste atraiu para elas a migração de tipos sociais que o progresso expulsara do Sul/Sudeste.
  3. C
    os romancistas brasileiros, embora críticos da sociedade, militaram com patriotismo na defesa de nossas personagens mais típicas e mais queridas.
  4. D
    certas ideologias exóticas influenciaram negativamente os romancistas brasileiros, fazendo-os representar, em suas obras, tipos sociais já extintos quando elas foram escritas.
  5. E
    a criança abandonada, personagem central dos três livros, torna-se, na idade adulta, um elemento nocivo à sociedade dos homens de bem.
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Resolução comentada

O trecho de Jorge Amado descreve o malandro: avesso ao trabalho regular, festeiro, capoeirista, que vive de expedientes e da pequena contravenção. É um tipo social nascido da sociedade escravista e de sua ordem social, em que o trabalho era marcado pela escravidão e os homens livres pobres ficavam à margem, vivendo de favor, de expedientes e da desordem.

O mesmo tipo aparece em três obras de épocas diferentes:

  1. Memórias de um sargento de milícias (1853): Rio de Janeiro do tempo de D. João VI, com Leonardo e a malandragem da ordem e da desordem.
  2. O cortiço (1890): Rio do fim do Império, com o capoeira Firmo e figuras como Miranda e Zé Carioca.
  3. Capitães de areia (1937): Salvador do século XX, já na República.

Se um mesmo tipo se repete por quase um século, atravessando Colônia, Império e República, isso mostra que certas estruturas sociais de origem colonial (escravismo, exclusão dos pobres livres do mercado de trabalho, informalidade) continuaram se repondo mesmo quando a sociedade mudava. É o que diz a alternativa A.

As demais não se sustentam: não há migração de tipos do Sul para o Nordeste (os três romances se passam no Rio e em Salvador), não há patriotismo defensivo nas obras, o tipo não estava extinto, e a criança abandonada não é personagem central nos três livros.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • BInventa uma migração de tipos sociais do Sul/Sudeste para o Norte/Nordeste; as obras se passam no Rio e em Salvador e a recorrência é histórica, não geográfica.
  • COs romances são críticos e retratam o malandro sem militância patriótica; a recorrência indica continuidade social, não defesa de personagens queridas.
  • DAfirma que os tipos já estavam extintos, o que contradiz a persistência do malandro e da sociedade que o produz; o tipo era real, não influência de ideologia exótica.
  • EA criança abandonada não é personagem central nos três livros e a questão não trata de juízo moral sobre ela.

Assuntos: literatura brasileira, tipos sociais no romance, malandragem.

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