Questão 33 da FUVEST 2010

1ª fase

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um “libertas quae sera tamen”*
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Vinícius de Moraes, “Pátria minha”, Antologia poética.

*A frase em latim traduz-se, comumente, por “liberdade ainda que tardia”.

Considere as seguintes afirmações:

I. O diálogo com outros textos (intertextualidade) é procedimento central na composição da estrofe.

II. O espírito de contradição manifesto nos versos indica que o amor da pátria que eles expressam não é oficial nem conformista.

III. O apego do eu lírico à tradição da poesia clássica patenteia-se na escolha de um verso latino como núcleo da estrofe.

Está correto o que se afirma em

  1. A
    I, apenas.
  2. B
    II, apenas.
  3. C
    I e II, apenas.
  4. D
    II e III, apenas.
  5. E
    I, II e III.
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Resolução comentada

Vamos avaliar cada afirmação à luz da estrofe de Vinícius de Moraes.

I. A estrofe cita o lema latino "libertas quae sera tamen", que aparece na bandeira de Minas Gerais e remete à Inconfidência Mineira. Depois, o poeta recria a frase com a tradução humorada do exame escolar. A estrofe se constrói justamente sobre esse diálogo com outro texto, então a afirmação está correta.

II. O poeta não aceita a tradução comum, "liberdade ainda que tardia". Ele a desloca para "Liberta que serás também", uma leitura de aluno que contraria a versão usual. Com isso, transforma o lema em uma promessa de libertação para a pátria. Esse gesto é irreverente e de contestação, e mostra um amor pela pátria que não é oficial nem conformista. A afirmação está correta.

III. O verso latino não indica apego à tradição clássica. Ele é usado como ponto de partida para ser reinterpretado com leveza e de modo coloquial, quase como brincadeira. O tom é de quebra da solenidade, e não de reverência ao classicismo. A afirmação está incorreta.

Só I e II estão corretas.

Alternativa C.

Pegadinha: A alternativa E engana ao tratar o uso do latim como reverência clássica, quando o poeta o usa de forma irônica e lúdica.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AReconhece a intertextualidade, mas ignora que a tradução alterada expressa contradição e uma visão não oficial da pátria (item II).
  • BVê o espírito de contradição, mas nega a intertextualidade, que é central na estrofe (item I).
  • DInclui o item III, que é falso, e deixa de fora o item I, que é verdadeiro.
  • EAceita o item III, mas o latim é reinterpretado de forma irreverente, sem apego à tradição clássica.

Assuntos: intertextualidade, Vinícius de Moraes, interpretação de poema.

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