Questão 19 da FUVEST 2009

1ª fase

Texto para as questões de 17 a 20

Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áa! Chu-áa... — ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim.

João Guimarães Rosa. O burrinho pedrês, Sagarana.

No conto de Guimarães Rosa a que pertence o excerto, a presença de um animal que é “sábio” e forma juízos supõe uma concepção da natureza

  1. A
    contrária àquela que é expressa pelo Anjo, no Auto da barca do inferno.
  2. B
    idêntica à de Jacinto (A cidade e as serras), que se converte ao culto da natureza virgem e intocável, quando escolhe a vida rural.
  3. C
    contrária à que, predominantemente, se afirma na poesia de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.
  4. D
    idêntica àquela que é exposta pelo autor de Vidas secas, no prefácio que escreveu para o livro.
  5. E
    semelhante à que se manifesta, sobretudo, nos capítulos finais de Memórias de um sargento de milícias.
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Resolução comentada

O trecho mostra o burrinho Sete-de-Ouros atravessando o rio cheio com calma, poupando forças, "amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo". O animal raciocina e julga, e está integrado à natureza. Isso supõe uma natureza com sabedoria própria, em que o bicho pensa e se harmoniza com o meio.

Agora, cada obra citada:

  1. Auto da barca do inferno: o Anjo só julga a alma dos homens pela fé e pela moral cristã. O animal não entra nessa concepção, e o auto não trata de natureza. Não há relação direta.
  2. A cidade e as serras: Jacinto se reconcilia com a vida rural, mas de forma equilibrada, com campo e conforto civilizado. Não é culto à natureza "virgem e intocável".
  3. Alberto Caeiro: para o heterônimo, a natureza é o que existe, sem sentidos ocultos nem filosofia. Ele rejeita humanizar as coisas (a "falácia patética"), e nisso o animal que "forma juízos" contraria essa visão. Por isso a alternativa é coerente.
  4. Vidas secas: no prefácio de Graciliano, a relação com a natureza é de determinismo e de aridez, bem diferente da sabedoria do burrinho. Já a cachorra Baleia, que sonha, é outro caso.
  5. Memórias de um sargento de milícias: a obra é urbana e social, sem visão de natureza comparável.

Portanto, a concepção do conto, que atribui sabedoria ao animal, contraria a de Caeiro, para quem a natureza não tem pensamento nem sentido.

Alternativa C.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • AO Anjo do Auto da barca não expressa nenhuma concepção de natureza; o auto trata do julgamento moral das almas humanas.
  • BJacinto não cultua uma natureza virgem e intocável; ele concilia a vida rural com o conforto civilizado.
  • DGraciliano Ramos, em Vidas secas, mostra uma natureza árida e determinista, não uma natureza que dá sabedoria ao animal.
  • EMemórias de um sargento de milícias é obra urbana, sem concepção de natureza semelhante à do conto.

Assuntos: Guimarães Rosa, Alberto Caeiro, concepção de natureza na literatura.

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