Questão 18 da FUVEST 2009
Texto para as questões de 17 a 20
Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áa! Chu-áa... — ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim.
João Guimarães Rosa. O burrinho pedrês, Sagarana.
Quando nos apresentam os homens vistos pelos olhos dos animais, as narrativas em que aparecem o burrinho pedrês, do conto homônimo (Sagarana), os bois de “Conversa de bois” (Sagarana) e a cachorra Baleia (Vidas secas) produzem um efeito de
- Aindignação, uma vez que cada um desses animais é morto por algozes humanos.
- Binfantilização, uma vez que esses animais pensantes são exclusivos da literatura infantil.
- Cmaravilhamento, na medida em que os respectivos narradores servem-se de sortilégios e de magia para penetrar na mente desses animais.
- Destranhamento, pois nos fazem enxergar de um ponto de vista inusitado o que antes parecia natural e familiar.
- Einverossimilhança, pois não conseguem dar credibilidade a esses animais dotados de interioridade.
Reportar erro na questão
Resolução comentada
A questão pede o efeito produzido quando a narrativa adota o ponto de vista de um animal para olhar os homens. O recurso se chama estranhamento: o leitor é obrigado a ver o mundo humano, que lhe parece natural, a partir de uma perspectiva incomum.
No trecho, o burrinho atravessa o rio cheio e pensa que aquilo "não é novo": "tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão". Ele compara a enchente à confusão dos homens e de seus hábitos, tratados como algo rotineiro e cansativo. O comportamento humano deixa de ser o padrão e passa a ser observado de fora.
O mesmo ocorre nos bois de "Conversa de bois", que comentam a crueldade do carreiro e do trabalho, e em Baleia, de Vidas secas, cujo olhar revela a miséria da família de Fabiano.
Assim, cada alternativa fica assim:
- A animais não morrem nas três obras (o burrinho e os bois sobrevivem, ao menos em parte), e o efeito central não é a indignação.
- B as obras não são infantis.
- C não há magia; é um recurso literário.
- E a interioridade dos animais é construída com verossimilhança artística, não a destrói.
Alternativa D.
Por que as outras alternativas estão erradas
- AGeneraliza que todos os animais são mortos por humanos, o que não ocorre (o burrinho não morre no trecho, e o efeito central não é indignação).
- BOs textos são literatura adulta e complexa; animais pensantes não são exclusivos da literatura infantil.
- COs narradores usam recursos literários (discurso indireto livre), não sortilégios nem magia.
- EA interioridade dos animais é construída de modo a ganhar credibilidade, não gera inverossimilhança.
Assuntos: Guimarães Rosa, ponto de vista narrativo, Vidas secas.
Reportar erro na resolução
Ver como caiu na prova