Questão 17 da FUVEST 2009

1ª fase

Texto para as questões de 17 a 20

Vestindo água, só saído o cimo do pescoço, o burrinho tinha de se enqueixar para o alto, a salvar também de fora o focinho. Uma peitada. Outro tacar de patas. Chu-áa! Chu-áa... — ruge o rio, como chuva deitada no chão. Nenhuma pressa! Outra remada, vagarosa. No fim de tudo, tem o pátio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego... Nenhuma pressa. Aqui, por ora, este poço doido, que barulha como um fogo, e faz medo, não é novo: tudo é ruim e uma só coisa, no caminho: como os homens e os seus modos, costumeira confusão. É só fechar os olhos. Como sempre. Outra passada, na massa fria. E ir sem afã, à voga surda, amigo da água, bem com o escuro, filho do fundo, poupando forças para o fim. Nada mais, nada de graça; nem um arranco, fora de hora. Assim.

João Guimarães Rosa. O burrinho pedrês, Sagarana.

Em trecho anterior do mesmo conto, o narrador chama Sete-de-Ouros de “sábio”. No excerto, a sabedoria do burrinho consiste, principalmente, em

  1. A
    procurar adaptar-se o melhor possível às forças adversas, que busca utilizar em benefício próprio.
  2. B
    firmar um pacto com as potências mágicas que se ocultam atrás das aparências do mundo natural.
  3. C
    combater frontalmente e sem concessões as atitudes dos homens, que considera confusas e desarrazoadas.
  4. D
    ignorar os perigos que o mundo apresenta, agindo como se eles não existissem.
  5. E
    escolher a inação e a inércia, confiando inteiramente seu destino às forças do puro acaso e da sorte.
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Resolução comentada

O trecho mostra o burrinho Sete-de-Ouros atravessando um rio cheio. Ele não luta contra a correnteza nem se desespera: "Nenhuma pressa!", "sem afã, à voga surda", "poupando forças para o fim", "nem um arranco, fora de hora".

  1. Ele reconhece o perigo: o poço "faz medo", mas "não é novo". Já viu coisa parecida, como a "costumeira confusão" dos homens. Logo, não o ignora (descarta D).
  2. Ele não fica parado nem se entrega à sorte: continua nadando, com "outra remada" e "outra passada". Age, mas com economia de esforço (descarta E).
  3. Ele não enfrenta o rio nem os homens: fecha os olhos e segue. Também não há pacto mágico no texto (descarta C e B).
  4. Ele se faz "amigo da água", "bem com o escuro, filho do fundo". Ajusta o ritmo ao rio e usa a própria água para avançar, guardando energia para chegar ao pátio, ao milho e ao pasto.

A sabedoria do burrinho é, portanto, adaptar-se às forças adversas e tirar proveito delas para chegar ao destino.

Alternativa A.

Por que as outras alternativas estão erradas

  • Bnão há pacto nem forças mágicas no trecho; a relação do burrinho com o rio é natural e prática.
  • Co burrinho evita o confronto: fecha os olhos e segue, sem combater os homens nem o rio.
  • Dele reconhece o perigo ("faz medo"); o que faz é lidar com ele com calma, não ignorá-lo.
  • Eele continua remando e age com cálculo, poupando forças; não é inércia nem entrega à sorte.

Assuntos: interpretação de texto, Guimarães Rosa, Sagarana.

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